Política em sala de aula: é hora de falar de eleições

Seu colégio está preparado para trabalhar o tema votação com alunos de qualquer idade? Conheça a opinião de especialistas sobre os cuidados a serem tomados com um dos assuntos em maior destaque hoje

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É dada a largada rumo ao poder e os palanques de todo o Brasil já estão movimentados, bem como as mídias sociais, que tornam os debates ainda mais acalorados em todas as parcelas da sociedade, inclusive, dentro das escolas. Assunto ligado ao estudo e exercício da cidadania, as eleições, mais do que nunca, são trazidas para os debates em salas de aula. Mas qual a melhor maneira de tratar essa matéria nas mais diferentes etapas de aprendizado dos alunos?

Considerando todas as transformações que a sociedade vive, principalmente em relação ao acesso à informação, falar de política em sala de aula tem sido um desafio cada vez maior para os educadores e que demanda muito mais critério e cuidado, além de uma dose extra de criatividade.

 

Por que falar de eleições?

Se a escola prepara o estudante para a vida, nem precisamos discutir a necessidade de se trazer à sala de aula um assunto que estará presente no cotidiano dos pequenos cidadãos a cada dois anos. Tanto que, desde 1996, a cidadania é parte da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como vetor da formação dos alunos e se faz presente em diferentes contextos, de maneira interdisciplinar.

“O tema eleições deve ser contínuo no ambiente escolar e não apenas tratado em época de eleições efetivas. Neste período, é claro, é preciso um esforço não isolado de um professor para tratar do assunto, mas, da escola, de modo a planejar atividades que possam servir de base para a formação crítica cidadã que tanto se almeja”, explica Samuel Mendonça, pesquisador do CNPq e professor titular da PUC Campinas nos cursos de Pedagogia, Direito e no programa de Pós-Graduação em Educação.

 

Formar professores é o primeiro passo

Como levar a política para ser discutida em sala de aula, se o principal mediador não tem qualquer formação sobre o assunto? Em uma época de disseminação de informações falsas, crise de representatividade e conhecimento raso, os colégios devem começar pela instrução do seu corpo pedagógico.

“Trabalhar o tema eleições em sala de aula depende da formação do professor. Uma boa parte da nossa população é analfabeta política e não tem qualquer formação sobre o assunto, mesmo durante a graduação”, afirma Daner Hornich, professor de filosofia e antropologia da Unisal Americana.

Ainda na opinião de Hornich, formar o professor é ensiná-lo, por exemplo, a trabalhar com dados reais e que costumam ser tratados pelas mídias de maneira, muitas vezes, equivocadas. “Você pode trabalhar informações concretas para entender o que está acontecendo no país em uma análise mais profunda”, diz ele, que sobre motivos ideológicos, ainda alerta: “Temos que tomar cuidado com nossas paixões políticas e trabalhar o assunto de maneira racional”.

Partindo de um planejamento bem elaborado, o colégio pode contribuir para a formação dos professores promovendo, por exemplo, debates com profissionais da área política, professores e pensadores. “O colégio pode até chamar representantes de diferentes partidos políticos para que apresentem seus projetos de governo. Esse tipo de pauta gera um bem comum para a sociedade”, exemplifica o professor da Unisal, que também aposta na união de professores e pais por uma gestão democrática e realização de processos em conjunto, levando o assunto para além dos muros da escola.


Guia de como abordar o tema no ensino básico

O tema eleições pode ser trabalhado por qualquer etapa do ensino básico, já que envolve princípios que fazem parte do processo de aprendizagem em todas as idades.
Com a ajuda do professor Samuel Mendonça, que também já atuou por quase uma década no Ensino Fundamental II e Médio em escolas públicas e particulares, exploramos alguns insights que podem auxiliar gestores e pedagogos em busca de uma abordagem mais atual e efetiva sobre o tema eleições. Confira:

 

Ensino Infantil

Que tal envolver os alunos que estão iniciando a vida escolar com habilidades socioemocionais e que também são intrínsecas das eleições, como respeito ou liberdade? De maneira lúdica e indireta, é possível exercitar a capacidade de escolha ilustrando o respeito mútuo e a responsabilidade. “Esses valores fazem parte do eixo cidadania e ética e estão presentes nos projetos pedagógicos das escolas e é fundamental que se criem estratégias para o exercício da escolha dos estudantes, seja por meio de brincadeiras ou jogos”, afirma Mendonça sobre o início do aprendizado de cidadania, complementando o que já é absorvido em casa.

 

Ensino Fundamental I

Dentro do Ensino Fundamental I ainda podemos trabalhar com dois cenários. Nos primeiros dois anos, as atividades se concentram no formato das brincadeiras e privilegiam os mesmos princípios do Ensino Infantil, porém, nos dois últimos anos dessa etapa, o cenário se torna a sala de aula.

Dividir a classe em pequenos grupos, estimular que os alunos façam suas próprias escolhas e se posicionem com opiniões, por exemplo, são ótimos exercícios para o fortalecimento da cidadania.

 

Ensino Fundamental II

No auge da pré-adolescência, quando a energia das crianças atinge níveis altíssimos, os educadores podem pensar em atividades que ressaltem o controle da disciplina e a construção de regras de conduta. “De forma dialógica se pode avançar na construção de regras para a melhor convivência e, embora não se trate de discutir as eleições de forma direta, necessariamente, a preparação está dada no fortalecimento do respeito e do cumprimento das regras construídas pelos alunos, supervisionadas por professores”, sugere o professor.

À medida que a criança se desenvolve, ela mesma começa a trazer para a sala suas demandas. Os alunos começam a se envolver em decisões de interesse geral e o diálogo se torna a principal ferramenta do professor. Nesses casos, exemplos para atrelar esse comportamento ao tema eleições não faltam, como a escolha de equipe representante de sala, que possa apresentar um plano de trabalho para o restante da turma, em total analogia a um plano de governo, como explica Mendonça: “Oferecer ocasião para que os adolescentes possam, inclusive, construir as regras para este tipo de atividade, fortalece ainda mais o espírito de cidadania”.

 

Ensino Médio

Momento decisivo na formação da educação básica, o Ensino Médio é, sem dúvidas, a etapa escolar em que o assunto eleições pode ser melhor trabalhado, por outro lado, é também a qual demanda maior cuidado por parte dos gestores para que a linha tênue entre razão e emoção não seja ultrapassada, fazendo com que o foco e a parcialidade se percam. Influenciados pela internet e pelos próprios familiares, aqui, os estudantes já trazem discursos prontos sobre os candidatos.

Vale ressaltar novamente a importância da gestão do colégio no acompanhamento e preparação do professor como mediador dessa discussão. O professor precisa ser capaz de dialogar com respeito e sabedoria e, principalmente, abrir o espaço para a interlocução e leituras diversas, de diferentes posições. “Do ponto de vista prático, é possível realizar debates entre os estudantes e estimulá-los a compreender os argumentos de todos os tipos, para que posam, inclusive, fazer suas próprias escolhas”, finaliza Mendonça.

 

Mais sobre política em sala de aula

A política é tema recorrente em aulas de cidadania e também já foi pauta de outra matéria aqui no Blog do IsCool App. Confira mais sobre política em classe e veja dicas e opiniões sobre essa delicada e importante matéria.

Política em classe

Com tantas manchetes envolvendo escândalos políticos, o tema volta à tona e chega com força às salas de aulas… Mas qual a melhor forma de trabalhar essa delicada temática? O IsCool App foi buscar opiniões para ajudar o professores e coordenadores pedagógicos nessa difícil tarefa

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A cada dia, uma nova teoria, um novo escândalo ou um segredo revelado trazem a política brasileira para o centro das atenções, levando o tema para além das manchetes dos jornais e tornando-o base de discussões em todas as esferas sociais, inclusive dentro das escolas. Nesse sentido, professores e coordenadores pedagógicos ganham a oportunidade de trabalhar em sala de aula a pauta política e tudo o que a envolve, tendo como ilustração casos reais para atividades envolvendo sociologia, antropologia e ciência política.

“É muito importante trazer os acontecimentos atuais para a sala de aula. Em geral, os alunos têm informações desencontradas sobre esses escândalos. A Sociologia pode ajudá-los a compreender esses fenômenos sociais de maneira mais crítica e menos intuitiva, com base em teorias e conceitos”, explica o professor de sociologia e autor do Sistema Anglo de Ensino, Eduardo Calbucci.

 

Introdução à política

Antes de falar dos últimos acontecimentos políticos, é necessário resgatar o trabalho do tema macro. É fato que ensino da política é de grande importância em sala de aula pela ligação direta à formação de opinião crítica dos futuros cidadãos. Dessa maneira, assuntos como divisão dos três poderes, formas de governo e sistemas eleitorais devem ser recorrentes. Mas, afinal, quando a política deve ser introduzida aos alunos? A partir de que idade esse assunto tem coerência e pode trazer efetividade?

Para o professor Calbucci, o Ensino Fundamental I abre espaço para a introdução do tema: “É claro que os professores vão dosando as informações e monitorando a complexidade das discussões de acordo com a idade dos alunos, mas é possível começar este trabalho logo após a alfabetização. Isso pode ser um ganho para eles e para a sociedade, que precisa de cidadãos que compreendam o funcionamento de nossas instituições”.

 

Política palpável

Quando nenhuma apostila traz a solução didática para se trabalhar os acontecimentos políticos em sua classe, é hora de partir para a prática. Afinal, nada como abordar o tema tendo como fonte as mídias imprensas e digitais.

Na opinião da professora de geografia e sociologia do Colégio Internacional EMECE, Angélica Larcher, além de ser um rico material didático, as notícias instigam a reflexão de diferentes pontos de vista. “É primordial que o os alunos tenha acesso à diversas fontes de informação e notícia. Um bom trabalho de pesquisa e compilação de informações, mediado pelo professor, deve ser o pontapé inicial de um bom debate. O acesso às diversas opiniões, fontes de informação, veículos de notícias e, principalmente, a disposição em escutar a posição do outro e colocar a sua própria posição faz com que o trabalho com temas polêmicos se aproxime o máximo possível da neutralidade”, afirma ela.

 

ensinar política na escola

 

Os exemplos e a mensagem moral

O trabalho de trazer a política para a rotina escolar do aluno nem sempre vem desenhado de maneira clara e requer atenção dobrada pela delicadeza de temas adjuntos, como ética e moral. Nesse sentido, é preciso cuidado dobrado para que o assunto não “patine” na esfera abstrata, estacionando em questões como princípios de honestidade e senso de verdade e justiça.

A análise política deve sempre ser o tema central e, mais importante, com base no apartidarismo. “Quando falamos em política partidária a Escola deve cuidar para que as informações passadas sejam o mais diversa quanto possível. Sem definir o ‘certo’ e o ‘errado’, provocando nos alunos a necessidade de definir prós e contras e elaborar alternativas”, frisa a professora Angélica.