Seu colégio tem trabalhado contra ou a favor das fake news?

Entenda porque as salas de aula são a esperança no combate às notícias falsas e veja dicas de como trabalhar o tema na prática

Fake-News_IsCool App

Elas estão espalhadas por toda a internet e já são consideradas uma nova arma de corrosão social. Em casos extremos, levam ao linchamento de cidadãos inocentes ou ao segundo sepultamento de uma figura pública, como no caso recente da vereadora carioca Marielle Franco, vítima das fake news mesmo depois de morta.

Apesar da grande proporção que vem tomando e de ser tema de milhares de pesquisa em todo o mundo, o assunto ainda não aparece como pauta em boa parte da ementas escolares no Brasil. Fato que pode contribuir para o avanço do problema, uma vez considerada a importância dos educadores na formação crítica da sociedade.

Já parou para pensar no espaço dado para as fake news dentro do seu colégio?

Em ano de eleições e em tempos de viralização, o IsCool App traz a discussão à tona, com base na opinião de especialistas no assunto, pesquisas e cases de sucesso, tudo proveniente de fontes verdadeiras, que podem auxiliar o trabalho de professores, coordenadores pedagógicos e mantenedores na defesa por uma sociedade mais equilibrada.

 

Fake news em números e proporções

Cientistas do MIT (Instituto de Tecnologia de Masachussets), chegaram à conclusão, em estudo recente, de que as fake news têm 70% mais chance de viralizar em relação às notícias reais. Segundo a pesquisa, enquanto cada postagem verdadeira atinge mil pessoas, as postagens falsas podem chegar à timeline de até 100 mil pessoas.

E mais, em tempos em que a tecnologia está ao alcance de todos, as fake news já evoluíram para as chamadas deep fakes, termo apresentado por cientistas da Universidade de Maryland que se referem a vídeos e imagens totalmente manipulados.
Ou seja, se antes só as produções de Hollywood conseguiam inserir um rosto conhecido em um corpo de dublê simulando cenas mais perigosas, hoje qualquer aficionado por softwares de manipulação digital já pode criar um vídeo falso com uma figura pública praticando algo ilícito.

O assunto é tão sério que a União Europeia lançou em janeiro uma força-tarefa na luta contra as fakes news. Trata-se de uma comissão multidisciplinar formada por 39 especialistas em comunicação, redes sociais, comportamento e sociedade civil que buscam não só dimensionar, como trazer soluções para o combate do problema.

 

Desinformação também é problema

Em novembro de 2017, o Conselho da Europa lançou o documento “Caos da Informação: para um marco multidisciplinar de pesquisa e elaboração de políticas”, com 34 recomendações aos governos europeus e um alerta para o que podemos chamar de desinformação, ou simplesmente, ignorância.

Para isso, os criadores do documento categorizam as fake news em 3 tipos:

  • Dis-information: Informação que é falsa e criada deliberadamente para prejudicar uma pessoa, grupo ou país;
  • Mis-information: Informação que é falsa, mas não foi criada com a intenção de prejudicar alguém;
  • Mal-information: Informação que é baseada em algum fato real, mas que foi editada para prejudicar alguém ou alguma instituição.

(Fonte: Council of Europe’s Information Disorder Report of November 2017)

 

Afinal, como trabalhar o assunto em sala de aula?

Para abordar o tema fake news em classe, o primeiro passo é posicionar-se em uma zona neutra, livre de opiniões pessoais e fortemente baseada na busca pela verdade.
De acordo com Wanderley Garcia, professor de Jornalismo na internet na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), o combate às fake news por parte da escola se dá na orientação de estudantes e familiares. “Isso não quer dizer dar uma orientação em favor de A ou de B, mas de defender a verdade como elemento primordial na construção de uma sociedade justa, humana. A escola poderia se nortear em discutir o valor da verdade e as consequências da mentira”, afirma ele, sobre como instigar os alunos para o tema.

Garcia, que é jornalista, mestre em Ciência da Informação e doutorando em Educação, ainda reflete: “Trata-se de um novo desafio que exige novas respostas”.

Muito presente na vida dos alunos desde o início do Ensino Fundamental, a internet deve ser tema de discussão constante em sala de aula, principalmente quando é base para assuntos como a ética, por exemplo. Muito mais do que introduzir a cultura de checagem de fontes entre os estudantes, é importante trabalhar, em diferentes disciplinas, a questão da propagação dos boatos e responsabilidade com a informação verdadeira.

 

Alfabetização midiática: o segredo do Colégio Humboldt no combate às fake news

Com base na disciplina alfabetização midiática e informacional, proposta pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) para promover o acesso igualitário à informação, o colégio bilíngüe alemão Humboldt, de São Paulo/SP, desenvolveu um projeto que ajuda jovens do Ensino Médio a reconhecerem notícias falsas, fontes não confiáveis e veículos tendenciosos.

Trata-se de atividades que envolvem a criação de redações que reflitam o tema e exercícios práticos para identificarem notícias falsas durante as aulas de Língua Portuguesa. “Esse projeto apresenta essas questões para que os alunos saibam avaliar uma notícia e eventualmente identificá-la como uma fake news e aprendam, dessa forma, investigar e verificar a idoneidade de sua a origem. Depois disso, a proposta é conduzir os estudantes a uma nova reflexão acerca dos interesses e motivações que sustentam essa prática, o que culmina na percepção daqueles que se beneficiam ou se prejudicam com isso”, afirma Marcelo Milani, coordenador de Tecnologias Educacionais do Colégio.

Mais a fundo, em um projeto multidisciplinar envolvendo a escola toda, o Humboldt também conta com um documento que apresenta a Matriz de Competências e Habilidades em Tecnologias e Mídias Digitais, que norteia os trabalhos pedagógicos da instituição em todos os níveis.

 

Tire suas dúvidas sobre as fake news

Para iniciar o trabalho de conscientização e combate às fake news, é importante entender mais sobre a origem desse termo e saber o que exatamente devemos fazer, além de simplesmente não compartilhar e ajudar a viralizar.

Acompanhe um bate-bola com o professor universitário Wanderley Garcia, jornalista, mestre em Ciência da Informação e doutorando em Educação, que aborda o tema de maneira mais comportamental.

 

IsCool App – O que é considerada uma fake new?

Profº Garcia: Podemos entender que as fake news têm raizes na fofoca, na transmissão de informações sem verificação e muitas vezes sem correspondência com a realidade. No entanto, na forma e na proporção atuais, é um fenômeno complexo e com graves impactos sociais. As fake news são notícias que não correspondem à verdade de maneira grosseira. Elas invertem a realidade. Não são apenas pequenos erros pontuais, são construídas totalmente de forma mentirosa.

 

IsCool App – Onde e por quem elas são criadas?

Profº Garcia: Não há um criador específico, nem mesmo um único grupo ou perfil. As fake news podem ser criadas por grupos que fazem disputas políticas, intencionalmente, destruindo reputações. Podem também ser geradas por interesses comerciais, como gerar acessos a sites. Podem também ser criadas de maneira mais sutil, com interpretações equivocadas dos fatos.

 

IsCool App – Quais os danos que elas podem gerar para a sociedade?

Profº Garcia: As fake news são mentiras e como mentiras só podem levar à deterioração social. As pessoas agem de acordo com aquilo que acreditam que é a realidade e como devem se comportar no mundo. Quando acreditam num mundo falso, tomam atitudes que correspondem a este mundo, mas não à realidade. Assim, temos visto o crescimento da violência, da intolerância, do ódio, do desrespeito ao próximo. Muito disso é construído cotidianamente a partir de visões distorcidas da realidade.

 

IsCool App – Como identificar uma notícia falsa na internet?

Profº Garcia: A primeira coisa talvez seja ficar atento ao exagero, ao absurdo. Fatos extremos ocorrem, mas são mais raros. A primeira atitude então é a do internauta: suspeitar de tudo aquilo que parecer grandioso demais e, antes de acreditar e, principalmente, compartilhar, verificar se já não há desmentidos na internet. Este já seria um primeiro passo. A outra coisa é tentar se libertar das paixões, não acreditar em tudo que lhe agrada e nem desacreditar em tudo que lhe desagrada.

 

IsCool App – Existem ferramentas que auxiliam no dia a dia?

Profº Garcia: Ainda não há mecanismos eficientes no combate às fake news. Mas há formas simples. A primeira é observar, como disse antes, os exageros, as notícias extremas, que soam estranhas aos ouvidos. Outra forma é fazer uma checagem rápida em sites de busca, como o Google. Mas atenção, não adianta apenas ver se a notícia está já em outros lugares, pois podem já ter sido bastante replicadas e aparecem no buscador. É preciso buscar pelos desmentidos.

Outra forma é prestar atenção à fonte. Mesmo que tenha visto em um site que não conheça e queira compartilhar, é bom verificar se a mesma informação foi publicada em uma fonte em que o leitor confia. Isso não é 100% seguro, mas reduz os riscos de se propagar uma fake news. Há vários sites e serviços tentando desenvolver ferramentas. O próprio Google está atento para evitar que fake news ocupem lugar de destaque em seu buscador.