Especial BNCC: O que mudou para o ensino privado?

Mesmo já trabalhando com as diretrizes da BNCC em seus currículos, instituições, redes e sistemas de ensino particular também vivem rotina de adequação; mudanças acontecem, principalmente, no quesito educação socioemocional e envolve a formação de professores

Se fizermos uma análise rápida do atual cenário da educação pública no Brasil, fica fácil de entender que a Base Nacional Comum Curricular chega com a importante missão de equalizar a aprendizagem e acelerar as transformações em salas de aula a uma nova realidade. Realidade esta já vivida pelo segmento de ensino particular há anos, em seus currículos com propostas de educação integral e modernas estruturas.

Entretanto, mesmo promovendo essas transformações na prática, as escolas, redes e os sistemas de ensino privado também vivem o período de adequação, afinal, a BNCC chegou para todos e com prazos a serem cumpridos.

Mas o que, de fato, muda na rotina dessas instituições? Como foi, para os gestores das escolas privadas, receber a BNCC? Entre as competências propostas, qual a de maior impacto?

Na segunda matéria do Especial BNCC do Blog do IsCool App, falamos do impacto da proposta no ensino particular tendo como base a opinião de profissionais com vasta experiência no segmento. De olho no prazo limite para a vigência da Base, vamos entender o que ainda deverá ser feito ao longo do ano no tocante ao assunto.

Clique aqui e leia a primeira matéria do especial que traz detalhes sobre a BNCC

Os alunos mudaram e a educação também

Com mais oportunidades, recursos e informação ao alcance, a rede de ensino particular, em geral, se posiciona na vanguarda, sempre atenta às transformações da sociedade. Recepcionando alunos nascidos na era tecnológica e em novas configurações familiares, há anos essas instituições seguem o movimento de adequação dos currículos e transformações físicas da tradicional sala de aula, recebendo com muita naturalidade as premissas da BNCC.

“O nicho das escolas particulares já vinha sentindo a necessidade de mudança de paradigma e buscava entender a necessidade do momento. Nós estamos na educação 4.0. Já passamos pela 3.0, que foi a introdução da tecnologia e interatividade que a BNCC propõe. Aliás, essa foi uma demanda das próprias escolas, da necessidade de atender os alunos de hoje inseridos no mundo digital”, conta Maria Helena Galucci, profissional com mais de 40 anos de atuação na gestão de uma rede de escolas particulares e consultora da Humus Educacional.

Com 85 anos de atuação, o Colégio Cristo Rei, mantido pelas Irmãs Agostinianas Missionárias em São Paulo,é um exemplo de que tradição e contemporaneidade devem andar lado a lado. Participando ativamente das discussões em torno da BNCC, com presença em audiências públicas e palestras sobre a elaboração do documento, a instituição conta que a escola recebeu com tranqüilidade as mudanças.

“O colégio vem acompanhando as discussões sobre currículo ao longo dos seus 85 anos. Em nossa proposta pedagógica, já trabalhamos com as 10 competências gerais da BNCC. Na prática, realizamos algumas pequenas alterações na grade curricular, dando ênfase nas formações para professores para trabalhar com atenção, principalmente, às competências sócioemocionais”, afirma Rosangela Jacob, doutora em educação e diretora do colégio Cristo Rei.

Esforços se concentram na preparação dos professores

Sem dúvidas, a formação e atualização dos professores envolvendo os temas da BNCC se tornaram o foco dos planejamentos dos colégios particulares. Afinal, é este profissional que vai colocar em prática o currículo e conduzir as mudanças. Ações nesse sentido se iniciaram em 2018, mas estão se intensificando em 2019.

“Vivemos uma realidade pedagógica eloquente e, por isso, nos tornamos uma cultura de organização aprendente. Para fazer intervenções mais efetivas no aprendizado do aluno, temos que aprender muito”, reforça o Profº Marco Antônio Almeida Del’Isola, gestor pedagógico do Mackenzie de Brasília, membro do conselho de educação do Distrito Federal e parte da comissão de legislação e normas do mesmo conselho.

Ainda para ele, mesmo que as aprendizagens requeridas pela BNCC estejam aquém do nível de aprendizado já consolidado pela sua equipe, o tema se tornou pauta dos treinamentos. “Temos formação de todos os professores e orientadores, sem exceção. Todos nós participamos desse movimento no sentido de aprender e refletir acerca da nossa ação, para que nosso processo se torne mais eficaz. Desde o final de 2017, já aprendemos mapas conceituais, aprendizagem significativa e tivemos estudos das metodologias ativas”, complementa Del’Isola.

No Colégio Cristo Rei, a proposta de formação dos professores tem foco na BNCC também desde que a Base foi aprovada. “Os professores dos diversos segmentos e disciplinas organizaram-se em grupos de estudos. Os pontos das discussões foram apresentadas e problematizadas com a escola como um todo, com mediação da coordenação pedagógica”, explica Rosangela.

Professores fora da zona de conforto

Na visão da consultora Maria Helena Galucci, a intensificação na preparação dos educadores veio ao encontro de uma outra necessidade, a do engajamento dos professores: “Na prática, de inicio, houve uma resistência por parte dos professores, principalmente os que já atuam há mais tempo. Considerando a condição e o gabarito profissional, vemos uma queda muito acentuada na formação de professores. A BNCC veio, então, para tirar as pessoas da zona de conforto, porque ela é uma realidade legal, quem não se apropriar vai estar fora”, afirma.

Enquanto os professores se apropriam da nova base e das novas diretrizes, a escola mais atenta já colhe grandes resultados práticos. Neste novo cenário, os professores passam a ser facilitadores do aprendizado e os alunos se tornam protagonistas do próprio conhecimento, construindo a sociedade do futuro.

Habilidades socioemocionais têm maior destaque

É de consenso que a BNCC não infringe a autonomia das instituições privadas, isso também porque a Base deixa claro que as transformações devem ser feitas de acordo com a realidade de cada escola. O que se vê é que os conselhos regionais de ensino e os próprios colégios determinam as competências prioritárias a serem trabalhadas.

Entretanto, de todas as diretrizes apresentadas pela BNCC, as que envolvem as habilidades socioemocionais são a de maior destaque e também as que estão requerendo maior atenção por parte das instituições privadas, mesmo que temas como coletividade e ética já sejam trabalhados em sala.

“Destacamos a importância sobre a concepção de educação a partir das interações do eu com o mundo. A atenção à diversidade de saberes e vivências culturais. A empatia e o diálogo como formas de ser e estar no mundo”, explica Rosangela sobre as principais competênciasselecionadas pela equipe do Colégio Cristo Rei de acordo com a proposta educacional da instituição.

“Quando a BNCC aponta caminhos socioemocionais, ela está legitimando coisas que já procurávamos fazer, como saber ouvir, ter empatia, se colocar no lugar do outro, trabalhar em grupo. Tem a ver com nosso dia a dia. Mas a educação socioemocional é, sem dúvidas, a competência de maior destaque pela importância da formação de caráter da pessoa”, emenda Marco Antônio sobre a proposta de absorção da BNCC por parte do Mackenzie Brasília.

Na próxima matéria do Especial BNCC aqui no Blog do IsCool App, especialistas destacam temas ainda delicados, como a BNCC no Ensino Médio e a ética. Não perca!

Especial Matrícula e Rematrícula: O que seu colégio precisa saber sobre o mercado para tornar as campanhas mais eficazes

Enquanto o país se recupera da recessão a passos lentos, as escolas são forçadas a repensar estratégias para conquistar e reter alunos; especialista Mekler Nunes ajuda a traçar panorama do mercado e compartilha cases de sucesso

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O mês de julho para o setor de educação é, oficialmente, o mês reservado para se pensar e rever estratégias de negócio e projetos e é, também, por tradição, o período em que o assunto “campanha de matrícula” ganha mais atenção por parte de diretores. Pensando nisso, o Blog do IsCool App inicia, hoje, uma série de quatro matérias sobre o tema, explorando diferentes pontos de vista para auxiliar o colégio na difícil tarefa de crescer em número de matrículas, garantir rematrículas e evitar a inadimplência.

E como é imprescindível começar qualquer assunto estratégico em uma análise básica de cenário, pesquisas e tendências, nada como iniciar a série falando de números do mercado da educação. Com a ajuda do especialista em estratégia, marketing e gestão, diretor da Visar Management & Consulting e consultor da Humus Consultoria Educacional, Mekler Nunes, você confere dados atuais sobre a economia e dicas para se orientar em suas decisões. Confira:

 

Como está a economia e o mercado da educação básica particular hoje?

Ainda que seja tempo de tomar fôlego, voltar a crescer e deixar a crise para trás, o Brasil vive um cenário político incerto, que insiste em manter a recuperação, de modo geral, uma pouco mais lenta que outros países. O fato é que, para planejar sua campanha de matrícula, é preciso entender a atual o comportamento da sociedade, ou seja, dos seus clientes.

Há um aumento expressivo na inadimplência, historicamente abaixo de 10% mas que em algumas regiões chegou a mais de 25%, e houve uma migração estimada de cerca de 1,2 milhões de alunos retornando para a Escola Pública”, afirma Mekler Nunes, com base em dados de pesquisas de federações de escolas particulares e do próprio Ministério da Educação.

Os números, aliás, dizem respeito ao Ensino Básico Privado, composto por mais de 40 mil escolas e 9 milhões de alunos em todo o Brasil, e que ainda sente o efeito de cerca de quatro anos de economia em baixa, com receitas estagnadas e custos em elevação.

Saiu na frente quem deu atenção às tendências do mercado há três anos e se preparou para a crise. Essa parcela aplicou a política de contenção para uma redução de 5 a 10% de custos, pausando novos investimentos e contratações e potencializando projetos para otimizar a entrada de recursos.

Não sentiram tanto efeito, também, as escolas que criaram bases fortes para sua marca, como colégios com alta aprovação no ENEM, escolas de elite e aquelas que se estabeleceram em regiões de pouca oferta. Apesar de uma prática nem sempre sustentável, a mensalidade a preço baixo também blindou uma parcela de colégios da educação básica particular.

Por outro lado, quem não se preparou, agora sofre conseqüências mais graves, por vezes até desesperadoras, como explica Nunes: “As (escolas) que aguardaram um pouco mais ou não perceberam esse desafio econômico nacional, hoje tentam medidas mais drásticas como demissão ou redução de professores, ou ações mais intensas, às vezes desesperadas de marketing, ou ainda passaram até a considerar a venda do negócio para algum grupo consolidador”.

 

Como devo trabalhar esses dados em minha campanha de matrícula?

Iniciamos o segundo semestre de 2018 com previsões de crescimento um pouco abaixo do esperado. Segundo anunciado pelo governo recentemente, o Brasil deve crescer 2,5% (e não 2,97, como se havia previsto) até dezembro.

Neste panorama, mesmo em clima de positividade, retomando projetos e prevendo crescimento do negócio, é preciso trazer sua campanha de matrícula para a atual realidade. Sendo assim, destacamos, aqui, três pontos a serem considerados:

1) Preço

Segundo Mekler Nunes, as famílias, em geral, ainda estão muito sensíveis a preço: “Conforme o perfil da comunidade que a escola atenda, R$ 50,00 ou R$ 100,00 de diferença na mensalidade podem ser decisivos”.

2) Prazo

Junto com o preço, o fator flexibilidade deve ser explorado. Ciclos de captação de alunos alongados já não são somente tendência, mas, sim, uma realidade que auxilia as famílias, minimizando o desembolso. “Flexibilidade na negociação de dívidas acaba sendo uma medida tanto de fidelização quanto de saneamento das receitas”, diz Nunes.

3) Concorrência

Saber analisar o mercado regional é também obter informações relevantes sobre a concorrência e as práticas adotadas por eles. Assim, pode ser que outras variáveis ganhem maior ou menor relevância durante a campanha de matrícula.

 

A quais tendências e práticas de mercado meu colégio deve estar atento?

Criação de um Contact Center

Sempre tendo a pessoalidade como estratégia-chave, as escolas de ensino básico criaram um sistema muito personalizado de vendas e negociação, um processo que funciona, mas que expõe gaps quanto à gestão de um CRM, por exemplo.

Analisando os processos utilizados pelas universidades, os colégios particulares de ensino básico estão, cada vez mais, profissionalizando suas áreas de contato. E, diferente de um Call Center, esse departamento (que ganha o come de Contact Center), cria relacionamento com os clientes e agrega características únicas da empresa. Lançando mão de técnicas de marketing e diferentes canais de comunicação, esse novo departamento é capaz de trazer resultados muito mais eficazes.

 

Profissionalização do setor de cobrança

Especialista com mais de 25 anos de experiência, Mekler Nunes afirma que muitas escolas têm contratado empresas especializadas nos serviços de cobrança, tanto para campanha de rematrículas quanto para quitação de dívidas. O resultado é a adoção de discursos menos duros e ações conciliatórias de sucesso “Evita-se também a cobrança de multas e juros excessivos; tipicamente não costumam ultrapassar 2 a 5% ao mês”, afirma o consultor.

 

Criatividade e atratividade na negociação

Uma campanha de marketing bem elaborada continua sendo ferramenta essencial no sucesso nos processos de matrícula e rematrícula. Mas de nada adianta criar estratégias malucas ou difíceis de se entender, o pai precisa sentir que aquela é uma ação que realmente compensa.

“Um grupo consolidador de escolas com sede no sul do Brasil, apresentou em um congresso uma prática recente de precificação no estilo ‘companhia aérea’. Quanto mais antecipada a rematrícula, maior o nível de desconto sendo que a mais antecipada praticamente teria os mesmo preços do ano vigente para o ano seguinte”, conta Nunes sobre uma ação que, segundo o grupo dono da ideia, foi um grande sucesso.

 

 

Hora de começar

As análises e exemplos citados devem te auxiliar em sua própria pesquisa de campo, afinal, seu colégio tem muitas outras informações relevantes acerca do seu mercado para serem levantadas. No próximo post da Série sobre Matrícula e Rematrícula você vai acompanhar um checklist do planejamento de campanha ideal. Continue conosco!