Guia da Educação 4.0: Quem são os alunos 4.0?

A nova maneira de educar com olhar para o potencial de desenvolvimento humano pode ser a arma contra a pobreza e a chave para um futuro melhor; saiba como essa transformação já está acontecendo na prática

Se estamos pontuando a Educação 4.0 como um marco, um divisor de águas do setor e mesmo da sociedade, então como podemos descrever os alunos protagonistas deste tempo? Eles são diferentes? Como viverão tudo isso na prática, no futuro?

A segunda matéria deste pequeno especial sobre Educação 4.0 traz mais informações sobre as mudanças de paradigma na prática, pela ótica dos estudantes e da evolução de seu aprendizado. Continuamos contando com a ajuda do professor Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto, criador e detentor do termo Educação 4.0, fundador do Instituto para a Formação Continuada em Educação (FCE), fundador e presidente do Instituto Galileo Galilei para a Educação (IGGE) e consultor da Humus Consultoria Educacional.

Os alunos da Educação 4.0 já estão nas salas de aula

Dando continuidade à linha de pensamento explorada na matéria anterior, entendemos que a educação é reflexo das mudanças vividas pela sociedade. Ou seja, a Educação 4.0 já acontece porque as demandas são reais e latentes, vide a rápida mudança nas nomenclaturas das gerações: em menos de 20 anos já passamos da geração Y e Z para a Alfa e, agora, Beta.

Os alunos nativos digitais e filhos de uma geração inteira que se perdeu em mais teorias e menos apoio socioemocional já estão circulando dentro das salas de aula. E, sim, eles trazem diferenças motoras e emocionais em relação às gerações anteriores. Daí a urgência das adaptações estruturais por parte das instituições escolares.

“Os mapeamentos neuronais mostram diferenças importantes nos processamentos audiovisuais dessas crianças, que têm essas áreas cerebrais 20% maior em relação à geração anterior. Em contrapartida, as áreas de códigos e linguagens são mais reduzidas. Então nós temos, em sala de aula, cérebros que são 30 a 35% diferentes do cérebro de uma geração anterior com menos de 20 anos de diferença de idade”, explica Zeferino.

Tais dados são citados em estudos como “A relação entre os nativos digitais, jogos eletrônicos e aprendizagem“, de Luciana Barbosa Cândido Carniello e Bárbara Mônica Alcântara Gratão Rodrigues 2 (ambas do CEFOPE Anápolis), além de Moema Gomes Moraes (UFG, UEG).

Hiperabundância de informações, pura física

Esse encurtamento das gerações, que vivenciamos praticamente a cada mudança de década, se dá pela hiperabundância de informações a qual somos diariamente expostos. Toda essa avalanche de dados, notícias, mensagens e eventos são responsáveis por transformar a nós e aos nossos filhos fisicamente, mais precisamente nossos cérebros.

É uma questão bio-físico-química: imagens, sons, percepções do tato, olfato e a própria fala são ações processadas eletricamente pelo sistema nervoso por meio da ação dos fótons (partículas que transportam energia). Tal processo sustenta a dimensão cultural do ser humano e se altera de acordo com os acontecimentos externos e internos ao corpo ao longo da vida, contemplando ciclos próprios de transformações – adaptações neuronais também explicadas pela neuroplasticidade.

Voltando essa teoria aos nossos novos e futuros alunos, professor Zeferino ressalta: “Na verdade, o aluno 4.0 é estranho a este mundo da escola 1, 2 e 3.0 porque ele já é diferente. A revolução educacional já adentra todos os dias a sala de aula (presencial ou não), calçada em chinelos, tênis ou sapatos usados por nossas crianças, adolescentes e jovens. Nesta perspectiva nós não estamos fazendo uma revolução, nós estamos buscando resolver os desafios causados pelos estudantes que já são de uma geração 4.0, buscando colaborar efetivamente com o seu desenvolvimento humano para que estejam aptos a lidar com as profundas, rápidas e irreversíveis transformações protagonizadas pela sociedade 5.0.

Desaprender para aprender

Após três séculos de formação, a educação como conhecemos passa por uma transformação profunda e que está muito mais relacionada a valores, atitudes, competências e habilidades. Como vimos, a Educação 4.0 se pauta no desenvolvimento humano, muito mais do que no mero quesito técnico das mídias que são utilizadas, já que estes são meios e não fins. O que importa fundamentalmente é a construção de estilos de pensamento e capacidade interventiva diante do novo, já que a fluidez dos processos sociais na atualidade e no futuro impõem desafios frequentes e complexamente crescentes.

Mas não é estranho pensar que, em tempos de alta capacidade de inovação e sistemas computadorizados superinteligentes, a humanidade esteja se esquecendo de termos tão básicos como os valores e a cidadania, por exemplo? A resposta, Zeferino tem na ponta da língua.

“Sim, é um processo de desaprendizagem, para que se construam novas aprendizagens. Nós podemos dizer que quando temos uma transição de paradigmas, experimentamos um conjunto de crenças, valores e fatores em que atuávamos e que já não respondem mais às nossas necessidades efetivas. Neste momento se evidencia uma ‘crise paradigmática’ e partimos, então, para a construção de um novo paradigma. São novas visões, novos líderes, novos valores, novas atitudes, novas competências, novas habilidades e também novos conhecimentos produzidos e aplicados (Tecnologia). Esse sim, a meu ver, é o limite superior da Educação 4.0. ”, enfatiza o professor, que é referência no assunto por ser precursor do tema e pesquisador reconhecido no meio acadêmico neste campo do conhecimento.

O futuro do aluno 4.0 e a luta contra a pobreza

Os dados comprovam que a educação precisa se adaptar à geração 4.0 para garantir um horizonte mais amplo, equilibrado e sustentável ao cidadão do futuro. Dados do IBGE de fevereiro de 2019 mostram, por exemplo, que o país bateu recorde de trabalhadores sem carteira assinada e que, nos últimos 4 anos, o país perdeu 3,7 milhões de postos de trabalho formais.

Ao contrário do que muitos pensam, porém, os dados também comprovam que este não é um mero reflexo de gestão governamental e de políticas públicas. O cenário tem se transformado rápida e profundamente por uma questão estrutural global e local, afinal, onde tínhamos pessoas trabalhando, agora temos máquinas que não só executam como também aprendem o que e como fazer. Sem contar algumas empresas de vanguarda (Indústria e Serviços 4.0) que contam com suporte de sistemas digitais cyberfísicos inteligentes.

Esses processos de transformação vão continuar acontecendo. Daí a importância da qualificação educacional com ênfase no desenvolvimento humano. Não é só se formar um profissional, até porque as profissões também estão na berlinda. Elas estão sofrendo grandes choques de atualidade e tornando-se obsoletas rapidamente, por isso é preciso que cada cidadão seja protagonista do seu próprio desenvolvimento na perspectiva de uma educação por toda a vida”, diz Zeferino.

Ainda para ele, enquanto a educação providencia o desenvolvimento humano com habilidades socioemocionais e cognitivas diferenciadas, os cidadãos do futuro garantirão o protagonismo desse novo mundo. “As pessoas não apenas como meras dependentes reativas, mas elas terão condições de entregar valores. A entrega de valor é onde está a produção de riqueza na economia, é isso que gera o superávit financeiro. Se essa entrega não existe, isso significa pobreza”, arremata o professor.

O Brasil acompanha em tempo real essa evolução 4.0?

Pesquisas do Instituto Galileo Galilei para Educação relacionadas ao estudo Brasil Educação 4.02030, lançado recentemente, mostram que se o Brasil fizer a lição de casa pode se tornar uma referência mundial em desenvolvimento social até o ano de 2030. Ele não necessariamente será o país mais desenvolvido educacionalmente, mas será aquele que terá proporcionado às futuras gerações o direito por uma aprendizagem efetivamente significativa, de valor, com pessoas bem formadas e capazes de serem autoras e protagonistas de novas realidades, desenvolvimento, riqueza e justiça social.

O próprio IGGE faz sua parte por meio do movimento Brasil Educação 4.02030, uma iniciativa que une instituições públicas e privadas da educação básica e superior, empresas de todos os setores, estudiosos e pessoas engajadas em prol da promoção da inovação nas escolas. São ações concretas que auxiliam instituições de todo o país na criação de projetos e processos para o desenvolvimento humano de alto nível.

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Guia da Educação 4.0: O que é e o que esperar dela

Termo em ascensão na comunidade escolar, a Educação 4.0 remete a uma nova era de aprendizagem baseada na inovação e no embasamento socioemocional, mas para se apropriar dela é preciso atitude e comprometimento por parte dos gestores

Nada melhor que introduzir um tema partindo de uma reflexão para embalar a leitura. Por isso, lançamos a seguinte pergunta: na sua opinião, a sociedade é um reflexo da educação que recebe ou seria a educação um reflexo do momento vivido pela sociedade?

Diferentemente da clássica pergunta “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”, aqui a resposta não carrega muitas análises filosóficas. Basta relembrar alguns pontos-chave da história da formação da sociedade contemporânea para afirmar que, na verdade, é a educação que se transforma à medida que a sociedade exige, ou, como diriam os estudiosos da Educação 4.0, à medida que mudamos os paradigmas – o que tem acontecido de maneira muito mais rápida, diga-se de passagem.

Em eventos, palestras, artigos e matérias do segmento ou mesmo dentro das escolas mais antenadas, o termo “Educação 4.0” ganha cada vez mais evidência, expondo um novo divisor de águas na curva da evolução do sistema educacional. Mas, como tudo o que é novo, o tema ainda é pouco explorado e, se não estudado, pode ser associado equivocadamente a revolução industrial e ascensão das tecnologias, por exemplo.

Para nos ajudar a entender mais sobre este conceito e como ele se dá na prática, o Blog do IsCool App bateu um papo com o professor Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto, criador e detentor do termo Educação 4.0, fundador do Instituto para a Formação Continuada em Educação (FCE), fundador e presidente do Instituto Galileu Galilei para a Educação (IGGE) e consultor da Humus Consultoria Educacional. Dessa rica conversa nascem duas matérias em mais um pequeno especial, que você acompanha hoje e na próxima semana.

Afinal, do que se trata a Educação 4.0?

Educação 4.0 é um termo criado para ilustrar uma nova fase do sistema educacional, um novo tipo de aprendizagem exigido pela sociedade que contempla o desenvolvimento de valores, competências e habilidades do ser humano, em harmonia com ambiente ciberfísico e sem abrir mão do conhecimento teórico.

“O conhecimento teórico está dado, está nas redes, está na nuvem. Na verdade, o que estamos falando, é de propiciar o desenvolvimento humano. A Educação 4.0 é principalmente uma educação de base cognitiva”, explica Zeferino, pós-doutorado em Educação Digital e Física e também em Inovação na Educação em Engenharia, ambas formações pelo ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

Abraçando temas bastante debatidos na educação, como a BNCC e a formação das habilidades socioemocionais, a Educação 4.0 mostra que o olhar mais apurado para a formação do potencial humano é, na verdade, uma demanda urgente da sociedade. À medida em que o ser humano se tornou capaz de criar máquinas ultrainteligentes, acabou deixando de lado sua inteligência interpessoal e a Educação 4.0 mostra que só seremos capazes de viver o futuro se soubermos usar o melhor de nós mesmos, que é a inovação, a capacidade de gerenciar as emoções, de gerenciar projetos e de se relacionar com outras pessoas.

“O que se fala na educação é que, com essas mudanças na sociedade, há também uma mudança profunda, por exemplo, no trabalho, na empregabilidade e no perfil de formação das pessoas. Essa transformação vai exigir dos jovens, principalmente aqueles que ainda vão ingressar na sua vida adulta, uma série de novas competências, habilidades e valores que não são normalmente praticados ainda na escola ou de forma menos empática. Nossa escola ainda é muito conteudista. Nós temos um oceano de informações com menos de meio dedo de profundidade. Quer dizer, há toda uma questão muito mais ligada a múltiplas inteligências do que necessariamente só o conteúdo em si.”

Prof Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto

Os 4 pilares da Educação 4.0

O termo Educação 4.0 está diretamente ligado ao livro escrito e lançado recentemente pelo professor Zeferino, o Educação 4.0: princípios e práticas de inovação em gestão e docência. Nele, o autor explica que essa formação cognitiva se dá por meio de 4 pilares de sustentação teórica, que são:

  • 1º pilar: O modelo sistêmico de educação
  • 2º pilar: A educação de base científica e tecnológica
  • 3º pilar: A engenharia e a gestão do conhecimento
  • 4º pilar: A ciberarquitetura

Embora a Educação 4.0 esteja inserida em um contexto sociocultural econômico mais amplo, ela é um termo muito longe de ser uma carona do contexto da indústria 4.0. Aliás, ela tem seu próprio protagonismo, que acontece – e tem que acontecer – dentro da sala de aula.

“Nós temos algumas instituições que, mesmo sem conhecimento da base teórica, já começaram a pensar numa Educação 4.0, mais participativa, inovadora no sentido da gestão, no sentido de que a inovação não pode ser colocada só como responsabilidade do professor, mas sim tem que ser compartilhada pela alta e média gestão da escola. Só com um plano de inovação as escolas tornam a Educação 4.0 uma vivência prática”, explica Zeferino sobre como o termo é posto à prova no dia a dia de uma escola.

E por que na escola e no ambiente da sala de aula? Justamente porque é nesse espaço que acontece a transformação da cultura. Afinal, só um plano concreto de inovação pode unir gestores, alunos e pais na construção de novas e sustentáveis ações transformadoras.

A diferença entre tecnologia e mídias

Para começar a trabalhar a prática da Educação 4.0, um dos primeiros passos, segundo o professor Zeferino, é entender a diferença entre tecnologia e mídias. Quando falamos em evolução da educação, é equivocado dizer que as novas tecnologias invadiram as salas de aula quando, na verdade, queremos nos referir a objetos que estão transformando o dia a dia de professores e alunos – esses são chamados de mídias (exemplo, lousas digitais, computadores, celulares, tablets, etc.).

A tecnologia existe desde que mundo é mundo, ou seja, tecnologia é qualquer ideia que resolva algum problema e crie soluções. Na Educação 4.0 o que se vê é que não é a mídia que faz a diferença, mas sim as pessoas responsáveis por essas inovações.

Estamos diante de uma nova revolução muito mais potente, rápida, silenciosa, profunda e irreversível que é uma revolução onde a cognição alcança os dispositivos físicos. Nós já passamos a viver num mundo ciberfísico, que integra o bio, o físico e o digital ao mesmo tempo. Neste momento, a educação também já está passando por um efeito dessas transformações”, enfatiza Zeferino.

A origem do termo

Falar de Educação 4.0 é também revisar as outras fases da evolução educacional, ou seja, a Educação 1.0, 2.0 e 3.0. Para contextualizar melhor o termo e embasar o seu conhecimento sobre o assunto, confira as definições dessas outras revoluções educacionais pela explicação do professor Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto:

Educação 1.0

É o surgimento e a disseminação do modelo de escolas, uma educação com tendência laica, inicialmente com uma forte base instalada na igreja, que, por sua vez, tem um papel fundamental na formação da sociedade. Essa escola é pautada, principalmente, na figura do professor, como aquele que professa publicamente suas doutrinas, e por comunicação oral, sem ajuda de mídias como a lousa, por exemplo.

Educação 2.0

Datada a partir do século 19, a Educação 2.0 traz os modelos teóricos de educação criados pela contribuição de pesquisadores como Lev Vygotsky, John Dewey, Alexei Leontiev e outros educadores, entre eles, Jean Piaget. Nessa fase, começa-se a olhar para a educação não especificamente com ares de pesquisa para a educação, mas com ares de pesquisa na psicologia,o que impacta a educação basicamente respondendo à questão de como as pessoas aprendem, de como se dá a produção do conhecimento humano. Menos empiricista, essa educação já traz a formação dos professores, inicialmente no magistério e seguida por especializações e licenciaturas.

Educação 3.0

A educação 3.0 acontece a partir da revolução digital, entre o final da década de 50 e início da década de 70, consolidando-se e intensificando-se a partir dos anos 90. É quando você começa-se a introduzir novas mídias na educação, como um quadro digital, um computador, um modelo de processo de ensino e aprendizagem ou um smartphone ligado à internet. Aqui, é possível que o aluno viva uma relação diferente com a informação. Além das mídias, outra categoria de análise é a metodologia utilizada, bem como as visões de ensino e aprendizagem e visões de currículo de educação.

E o Brasil?

O Brasil ainda permeia esses três modelos de educação que acabamos de citar. Faltam mídias e recursos em muitas áreas e até é possível enxergar resquícios da Educação 1.0 em alguns lugares mais distantes dos grandes centros – ainda que possa ser um processo de aprendizado mais interativa, com riquezas regionais únicas. De qualquer forma, sendo palco para o nascimento no termo Educação 4.0, o país está começando as lições de casa rumo ao futuro, como poderemos conferir na próxima matéria desse especial.

Interessado pelo tema?

Se assim como nós você é um apaixonado pela educação e por boas práticas de gestão escolar, acesse o site Educação 4.0 mantido pelo professor Zeferino e confira muito mais conteúdo sobre o tema. É a oportunidade de começar ou mesmo potencializar a transformação do seu colégio e dos seus alunos rumo a uma educação mais humanizada e de acordo com as premissas da sociedade.

Especial BNCC: As mudanças do Ensino Médio e a reta final para adequações

A entrega dos novos projetos curriculares nas secretarias regionais deve ser feita até o início de 2020, mas ainda há muito a ser feito, principalmente quando o assunto é a nova Base do Ensino Médio e as mudanças que ela implica

Nosso Especial sobre a Base Nacional Comum Curricular continua, mas, nesta terceira matéria, abordamos um dos itens mais polêmicos do projeto de maneira geral: a etapa do Ensino Médio.

Nos textos anteriores, trouxemos um panorama geral sobre o assunto e suas diretrizes e discutimos o que exatamente mudou para o ensino particular.

Agora, buscamos entender a polêmica acerca da última etapa da Base, que culminou em muitos questionamentos por parte de toda classe escolar e chegou a provocar demissões no alto escalão do MEC.

Aprovada oficialmente em 4 dezembro de 2018 pelo CNE (Conselho Nacional de Educação), esta etapa da BNCC mantém o prazo de vigência para o início do ano letivo de 2020, tornando 2019 um ano ainda mais decisivo (e mais curto!) para as adaptações.

BNCC do EM na teoria

Entender e traduzir as mudanças que o documento prevê para a realidade da educação brasileira no Ensino Médio é um grande desafio. A intenção é a melhor: elevar a qualidade do ensino no país de modo a atender os anseios da juventude, preparando-a para desenvolver suas habilidades e melhor atender ao disputado mercado de trabalho futuro. Mas, na prática, as mudanças requerem atenção.

Um dos principais focos de mudança é a carga horária, que passa de 2400 horas para 3000 horas no ensino diurno e oferece ao estudante do Ensino Médio noturno a possibilidade de estender o curso por mais de três anos, desde que o mínimo de horas-aulas seja 2400 até 2021, chegando a 3000 a partir de 2022.

A interdisciplinaridade e a flexibilidade são outros destaques. Aqui, o objetivo principal é garantir a autonomia do estudante. De acordo com a sua realidade local, cada escola, pública ou privada, elabora seu currículo, desde que se comprometa em possibilitar escolhas ao aluno. Assim, o estudante determina as matérias que mais lhe interessarem para se aprofundar, tudo isso, já de olho na formação técnica e profissional que vai ao encontro das demandas do mercado de trabalho.

As 10 competências gerais da BNCC valem também para o Ensino Médio. Esta nova etapa da Base, porém, vem organizada por áreas disciplinares, que interagem entre si para tornar o currículo mais adequado à realidade.

A divisão entre as áreas de conhecimento fica assim:

  • Linguagens e suas Tecnologias (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa);
  • Matemática;
  • Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química);
  • Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia).

BNCC do EM na prática

Levando em consideração um panorama rápido sobre as estruturas escolares Brasil afora hoje, a dúvida que fica é: será possível oferecer ao aluno do ensino médio, na prática, toda essa liberdade de escolha que a BNCC propõe?

“A dificuldade em implantar a BNCC no Ensino Médio, dentro das áreas de conhecimento propostas, está no fato de a escola precisar operar mudanças estruturais e promover uma reorganização curricular. Não é tão simples, por exemplo, que uma escola com três turmas de Ensino Médio consiga se organizar para propor aos alunos frentes tão fragmentadas”, exemplifica Maria Helena Galucci, profissional com mais de 40 anos de atuação na gestão escolar e consultora da Humus Educacional.

A verdade é que já não há mais o que discutir, a fase de estudos da BNCC do Ensino Médio já passou e contou com a opinião de muitos profissionais gabaritados. Aliás, as mudanças acontecem, a exemplo da primeira etapa da BNCC, baseadas em cases de sucesso de países que já trabalham nesse modelo e vêm obtendo sucesso nos resultados, como Estados Unidos, França e Chile.

Para Maria Helena, por mais que pareça algo difícil neste momento, a proposta é válida e totalmente possível. “Não tem outra saída. O que precisamos fazer é encontrar um bom caminho na organização dessas escolas. A gestão precisa entender o custo-benefício dessas mudanças e disponibilizar pessoas com vontade e preparo. Tem que haver uma reestruturação total, desde o administrativo até o pedagógico”, explica ela que, com base em suas viagens visitando escolas em países-modelo, constata que a BNCC do Ensino Médio é o primeiro grande passo rumo a um sistema educacional mais eficaz.

Ensino Médio particular

Na matéria passada, vimos que o ensino particular já tem se adequado à proposta da BNCC há anos com um trabalho voltado para as competência e habilidades além do patamar cognitivo. Mas mesmo para essa parcela da gestão educacional do país, a etapa do Ensino Médio remete a questionamentos.

“Nós também viemos acompanhando a etapa da BNCC do Ensino Médio, quando ela foi oficializada nós já sabíamos do quadrante de alteração. Há alguma criticas, é natural, então ainda vamos aguardar a fase de regulamentação regional para irmos adiante. O fato é que a as novas propostas terão que dialogar com os processos seletivos já existentes no Brasil, como o ENEM e os vestibulares”, alerta Profº Marco Antônio Almeida Del’Isola, gestor pedagógico do colégio Mackenzie de Brasília.

A dúvida que fica é: Preparados em suas habilidades manuais e socioemocionais para o mercado de trabalho, esses jovens serão capazes de enfrentar os desafios dos vestibulares? Os tradicionais processos também deverão mudar?

Reavaliando e revalidando

Com tantas mudanças à vista, o que podemos atestar é que 2019 será um ano de muito trabalho para os colégios. “O entendimento sobre a BNCC ainda não chegou a sua totalidade, as escolas estão trabalhando nisso e há grande interesse por parte delas, mas é preciso continuar investindo nessa formação para que as mudanças sejam efetivas”, ressalta Maria Helena.

Ainda para a especialista, que hoje presta consultoria sobre o tema BNCC nas escolas, outro segredo além do investimento na formação dos professores é a reavaliação do currículo e das atividades na prática. Se em 2018 os colégios puderam criar seus planos, 2019 chega para que essas ações sejam colocadas em prática e avaliadas. Até 2020, quando a escola entrega seu plano para a secretaria regional de educação, todas as ideias estarão validadas e prontas para dar bons frutos.

Mais

Na próxima matéria deste especial você confere um verdadeiro dossiê sobre a tecnologia e a ética, um capítulo à parte na BNCC. Não perca!

Sala de aula invertida na prática: o que é e como implantar

Criado há pouco mais de dez anos, o modelo de organização de sala de aula é mais uma das opções destacadas pelas metodologias ativas; escolas têm adaptado a tendência a seus próprios métodos na busca por resultados ainda mais eficazes

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Cadeiras enfileiradas, cadernos e livros como principal ferramenta de uso do aluno, salas de aula fechadas e totalmente emparedadas, protagonismo do professor… o modelo de ensino do século passado ainda é o mais utilizado em escolas do mundo todo porque também prova ser eficaz em muitos pontos. Entretanto, essa imagem de organização tem, aos poucos, se dissolvido mediante tantas transformações pelas quais a sociedade transcende.

Novas ferramentas, principalmente baseadas em tecnologias educacionais, dão espaço ao que chamamos de ensino híbrido, cuja intenção é oferecer diversas opções de aprendizado ao aluno. Uma das metodologias ativas inseridas nesse cenário, e que cada vez mais ganha a atenção de gestores escolares, é a Sala de Aula Invertida, que, de maneira resumida, traz o aluno como explorador do conteúdo e o professor com o papel (não menos importante) de mediador do aprendizado.

Unida a outras técnicas e metodologias, a Sala de Aula Invertida tem sido aproveitada com êxito por gestores educacionais Brasil afora. Mas nada de mudanças radicais ou de puro modismo, o segredo de quem aplica o conceito está na capacidade uni-lo às práticas já consagradas pela instituição, de maneira orgânica.

 

Mais que uma tendência, uma necessidade

A Sala da Aula Invertida surgiu nos Estados Unidos, entre os anos de 2006 e 2007, em grandes universidades americanas. Um dos precursores do chamado flipped classroom é o professor de química da Universidade do Colorado, Jonathan Bergmann, que, com base em pesquisas, defende o método de flipped learning como sendo o mais eficaz no aprendizado em qualquer idade.

Mais eficaz ou não, na prática, a verdade é que o método tem características diferenciadas. “A chamada sala de aula invertida é, dentro outros, um dos modelos de organização do ensino híbrido, que pressupõe que haja várias maneiras de aprender, em vários lugares e que alterna momentos em que o aluno estuda sozinho – normalmente em ambientes digitais – e em grupo – quando está em sala de aula com o professor e com os colegas”, explica Márcia Rosiello Zenker, educadora, psicóloga clínica e educacional e consultora associada da Humus Consultoria Educacional.

A Sala de Aula Invertida envolve as TDICs – Tecnologias Digitais de Comunicação e Informação, por isso ganha a atenção da comunidade escolar. “É uma tendência e uma necessidade as escolas usarem, cada vez mais, metodologias ativas. A sala de aula invertida é apenas um modelo que serve a essa metodologia. Hoje, com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), em que se propõe o desenvolvimento do protagonismo do estudante e a inserção das TDICs, mais do que nunca são importantes e bem-vindas todas as formas de organização do conhecimento. E a sala de aula invertida é uma delas”, afirma Márcia.

 

O exemplo do Colégio Emilie de Villeneuve

No Colégio Emilie de Villeneuve, que utiliza o IsCool App como plataforma de gestão de comunicação, o conceito da Sala de Aula Invertida faz parte da estratégia de ensino de forma orgânica, pois está inserido em todos os espaços de aprendizagem da instituição. “Todos os espaços de aula, como laboratórios de ciências, informática, línguas, cozinha experimental , entre outros, são utilizados de forma a permitir ao aluno a construção ativa de seu conhecimento e não apenas reproduzir sequências didáticas”, conta Marizilda Escudeiro de Oliveira, Coordenadora Pedagógico-Educacional do Ensino Médio e da EJA – Educação de Jovens e Adultos do colégio localizado na capital paulista.

Comprometido com o aprendizado hibrido e com a difusão do que há de mais atual em tecnologias educacionais, o Colégio Emilie de Villeneuve se pauta nos bons resultados obtidos com a unificação de metologias no espaço maker, uma sala de aula para aprendizagem criativa, que contou com investimento em mobiliário próprio para se adaptar de acordo com a necessidade de cada grupo. “Esta sala vai além da aula invertida. Os alunos desenvolvem projetos no plano digital e os tornam reais com a ajuda de sensores, impressora 3D, cortadora a lazer. Desta forma constroem conceitos, desenvolvem habilidades transitando entre uma ideia, um projeto e a sua execução. Os ganhos com a utilização desta sala estão relacionados à aplicação direta nas questões do cotidiano”, ressalta a coordenadora.

 

Uma questão de adaptação

O fato é que as escolas têm adaptado as metodologias ativas à sua realidade e aos seus fundamentos. Em matéria recente, citamos o exemplo do Colégio Teresiano, do Rio de Janeiro, que utiliza diversas ferramentas, entre elas o blog, para promover o empoderamento digital. O próprio colégio, que também aposta no IsCool App para comunicar e integrar as famílias sobre as atividades desenvolvidas em classe, cita que reservou um andar inteiro para a criação de salas de aulas interativas, em que o aluno pode mesclar o uso de computador, tablet, celular, impressoras 3D e livros simultaneamente.

Espaços híbridos, aliás, também já foram tema para um dos textos mais lidos deste blog, a matéria sobre arquitetura escolar. Com especialistas no assunto, o texto fala da importância da quebra de paradigmas no design das salas de aula contemporâneas e cita exemplos de como essas adaptações podem ser aplicadas em cada colégio, alinhando demandas e orçamento.

 

As vantagens da sala de aula invertida na prática

Especialista em história da educação brasileira, Márcia Rosiello Zenker elenca os principais ganhos refletidos pela sala de aula invertida, de acordo com declarações colhidas por ela de professores e alunos. Confira:

  • Maior interatividade, tanto entre os alunos como entre alunos e professor;
    Aumento no nível de colaboração entre os alunos e estímulo ao compartilhamento do conhecimento por parte deles;
  • Crescimento da motivação e interesse dos alunos em aprender;
  • Ampliação do interesse pelo conhecimento para além dos muros da escola, chegando, muitas vezes, aos familiares;
  • Apropriação, pelos alunos, da construção do conhecimento;
  • Facilitação de identificação das dificuldades dos alunos pelo professor, possibilitando que ele redirecione o estudante para novas atividades.