Guia da Educação 4.0: O que é e o que esperar dela

Termo em ascensão na comunidade escolar, a Educação 4.0 remete a uma nova era de aprendizagem baseada na inovação e no embasamento socioemocional, mas para se apropriar dela é preciso atitude e comprometimento por parte dos gestores

Nada melhor que introduzir um tema partindo de uma reflexão para embalar a leitura. Por isso, lançamos a seguinte pergunta: na sua opinião, a sociedade é um reflexo da educação que recebe ou seria a educação um reflexo do momento vivido pela sociedade?

Diferentemente da clássica pergunta “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”, aqui a resposta não carrega muitas análises filosóficas. Basta relembrar alguns pontos-chave da história da formação da sociedade contemporânea para afirmar que, na verdade, é a educação que se transforma à medida que a sociedade exige, ou, como diriam os estudiosos da Educação 4.0, à medida que mudamos os paradigmas – o que tem acontecido de maneira muito mais rápida, diga-se de passagem.

Em eventos, palestras, artigos e matérias do segmento ou mesmo dentro das escolas mais antenadas, o termo “Educação 4.0” ganha cada vez mais evidência, expondo um novo divisor de águas na curva da evolução do sistema educacional. Mas, como tudo o que é novo, o tema ainda é pouco explorado e, se não estudado, pode ser associado equivocadamente a revolução industrial e ascensão das tecnologias, por exemplo.

Para nos ajudar a entender mais sobre este conceito e como ele se dá na prática, o Blog do IsCool App bateu um papo com o professor Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto, criador e detentor do termo Educação 4.0, fundador do Instituto para a Formação Continuada em Educação (FCE), fundador e presidente do Instituto Galileu Galilei para a Educação (IGGE) e consultor da Humus Consultoria Educacional. Dessa rica conversa nascem duas matérias em mais um pequeno especial, que você acompanha hoje e na próxima semana.

Afinal, do que se trata a Educação 4.0?

Educação 4.0 é um termo criado para ilustrar uma nova fase do sistema educacional, um novo tipo de aprendizagem exigido pela sociedade que contempla o desenvolvimento de valores, competências e habilidades do ser humano, em harmonia com ambiente ciberfísico e sem abrir mão do conhecimento teórico.

“O conhecimento teórico está dado, está nas redes, está na nuvem. Na verdade, o que estamos falando, é de propiciar o desenvolvimento humano. A Educação 4.0 é principalmente uma educação de base cognitiva”, explica Zeferino, pós-doutorado em Educação Digital e Física e também em Inovação na Educação em Engenharia, ambas formações pelo ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

Abraçando temas bastante debatidos na educação, como a BNCC e a formação das habilidades socioemocionais, a Educação 4.0 mostra que o olhar mais apurado para a formação do potencial humano é, na verdade, uma demanda urgente da sociedade. À medida em que o ser humano se tornou capaz de criar máquinas ultrainteligentes, acabou deixando de lado sua inteligência interpessoal e a Educação 4.0 mostra que só seremos capazes de viver o futuro se soubermos usar o melhor de nós mesmos, que é a inovação, a capacidade de gerenciar as emoções, de gerenciar projetos e de se relacionar com outras pessoas.

“O que se fala na educação é que, com essas mudanças na sociedade, há também uma mudança profunda, por exemplo, no trabalho, na empregabilidade e no perfil de formação das pessoas. Essa transformação vai exigir dos jovens, principalmente aqueles que ainda vão ingressar na sua vida adulta, uma série de novas competências, habilidades e valores que não são normalmente praticados ainda na escola ou de forma menos empática. Nossa escola ainda é muito conteudista. Nós temos um oceano de informações com menos de meio dedo de profundidade. Quer dizer, há toda uma questão muito mais ligada a múltiplas inteligências do que necessariamente só o conteúdo em si.”

Prof Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto

Os 4 pilares da Educação 4.0

O termo Educação 4.0 está diretamente ligado ao livro escrito e lançado recentemente pelo professor Zeferino, o Educação 4.0: princípios e práticas de inovação em gestão e docência. Nele, o autor explica que essa formação cognitiva se dá por meio de 4 pilares de sustentação teórica, que são:

  • 1º pilar: O modelo sistêmico de educação
  • 2º pilar: A educação de base científica e tecnológica
  • 3º pilar: A engenharia e a gestão do conhecimento
  • 4º pilar: A ciberarquitetura

Embora a Educação 4.0 esteja inserida em um contexto sociocultural econômico mais amplo, ela é um termo muito longe de ser uma carona do contexto da indústria 4.0. Aliás, ela tem seu próprio protagonismo, que acontece – e tem que acontecer – dentro da sala de aula.

“Nós temos algumas instituições que, mesmo sem conhecimento da base teórica, já começaram a pensar numa Educação 4.0, mais participativa, inovadora no sentido da gestão, no sentido de que a inovação não pode ser colocada só como responsabilidade do professor, mas sim tem que ser compartilhada pela alta e média gestão da escola. Só com um plano de inovação as escolas tornam a Educação 4.0 uma vivência prática”, explica Zeferino sobre como o termo é posto à prova no dia a dia de uma escola.

E por que na escola e no ambiente da sala de aula? Justamente porque é nesse espaço que acontece a transformação da cultura. Afinal, só um plano concreto de inovação pode unir gestores, alunos e pais na construção de novas e sustentáveis ações transformadoras.

A diferença entre tecnologia e mídias

Para começar a trabalhar a prática da Educação 4.0, um dos primeiros passos, segundo o professor Zeferino, é entender a diferença entre tecnologia e mídias. Quando falamos em evolução da educação, é equivocado dizer que as novas tecnologias invadiram as salas de aula quando, na verdade, queremos nos referir a objetos que estão transformando o dia a dia de professores e alunos – esses são chamados de mídias (exemplo, lousas digitais, computadores, celulares, tablets, etc.).

A tecnologia existe desde que mundo é mundo, ou seja, tecnologia é qualquer ideia que resolva algum problema e crie soluções. Na Educação 4.0 o que se vê é que não é a mídia que faz a diferença, mas sim as pessoas responsáveis por essas inovações.

Estamos diante de uma nova revolução muito mais potente, rápida, silenciosa, profunda e irreversível que é uma revolução onde a cognição alcança os dispositivos físicos. Nós já passamos a viver num mundo ciberfísico, que integra o bio, o físico e o digital ao mesmo tempo. Neste momento, a educação também já está passando por um efeito dessas transformações”, enfatiza Zeferino.

A origem do termo

Falar de Educação 4.0 é também revisar as outras fases da evolução educacional, ou seja, a Educação 1.0, 2.0 e 3.0. Para contextualizar melhor o termo e embasar o seu conhecimento sobre o assunto, confira as definições dessas outras revoluções educacionais pela explicação do professor Dr. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto:

Educação 1.0

É o surgimento e a disseminação do modelo de escolas, uma educação com tendência laica, inicialmente com uma forte base instalada na igreja, que, por sua vez, tem um papel fundamental na formação da sociedade. Essa escola é pautada, principalmente, na figura do professor, como aquele que professa publicamente suas doutrinas, e por comunicação oral, sem ajuda de mídias como a lousa, por exemplo.

Educação 2.0

Datada a partir do século 19, a Educação 2.0 traz os modelos teóricos de educação criados pela contribuição de pesquisadores como Lev Vygotsky, John Dewey, Alexei Leontiev e outros educadores, entre eles, Jean Piaget. Nessa fase, começa-se a olhar para a educação não especificamente com ares de pesquisa para a educação, mas com ares de pesquisa na psicologia,o que impacta a educação basicamente respondendo à questão de como as pessoas aprendem, de como se dá a produção do conhecimento humano. Menos empiricista, essa educação já traz a formação dos professores, inicialmente no magistério e seguida por especializações e licenciaturas.

Educação 3.0

A educação 3.0 acontece a partir da revolução digital, entre o final da década de 50 e início da década de 70, consolidando-se e intensificando-se a partir dos anos 90. É quando você começa-se a introduzir novas mídias na educação, como um quadro digital, um computador, um modelo de processo de ensino e aprendizagem ou um smartphone ligado à internet. Aqui, é possível que o aluno viva uma relação diferente com a informação. Além das mídias, outra categoria de análise é a metodologia utilizada, bem como as visões de ensino e aprendizagem e visões de currículo de educação.

E o Brasil?

O Brasil ainda permeia esses três modelos de educação que acabamos de citar. Faltam mídias e recursos em muitas áreas e até é possível enxergar resquícios da Educação 1.0 em alguns lugares mais distantes dos grandes centros – ainda que possa ser um processo de aprendizado mais interativa, com riquezas regionais únicas. De qualquer forma, sendo palco para o nascimento no termo Educação 4.0, o país está começando as lições de casa rumo ao futuro, como poderemos conferir na próxima matéria desse especial.

Interessado pelo tema?

Se assim como nós você é um apaixonado pela educação e por boas práticas de gestão escolar, acesse o site Educação 4.0 mantido pelo professor Zeferino e confira muito mais conteúdo sobre o tema. É a oportunidade de começar ou mesmo potencializar a transformação do seu colégio e dos seus alunos rumo a uma educação mais humanizada e de acordo com as premissas da sociedade.

Especial BNCC: A presença da tecnologia e a importância da ética

Entenda qual a relação da tecnologia com as 10 competências da BNCC e veja dicas de como os colégios podem se apropriar dela sem deixar de lado a responsabilidade ética

Mesmo quando pensamos nas competências de cunho social e emocional, enfatizadas pela Base Nacional Comum Curricular, podemos observar que há sempre uma nova ferramenta tecnológica envolvida: computadores, tablets, celulares, aplicativos, games, oficinas makers e, principalmente, a internet.

Sim, a educação evolui ao passo em que a sociedade se transforma e com base em uma nova geração inteira de alunos nascidos na era digital, com necessidades diferentes e já preparados para a chamada Educação 4.0.

Prova de tudo isso é a valorização crescente da área de TE – Tecnologias Educacionais e seus profissionais dentro dos colégios em cada canto do país. Formada por educadores e pedagogos superantenados às novidades do mercado tecnológico educacional, a equipe de TE tem papel fundamental na nova educação e, claro, na adequação do currículo à BNCC.

Cada uma das 10 competências da BNCC envolve alguma solução tecnológica em sua prática, daí a importância de tratar o tema nesta última matéria do Especial BNCC do Blog IsCool App.

Nas matérias anteriores já traçamos um panorama sobre a BNCC, buscamos saber o que ela traria de mudança para o ensino particular e também abordamos o status das adequações dos currículos com a chegada da Base do Ensino Médio.

Agora, com a ajuda de Rosa Lamana, educadora, mestre em educação e parte da equipe da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo, vamos entender a correlação da tecnologia com a BNCC em suas diferentes competências.

As três categorias da BNCC

Para Rosa, é fácil entender como a tecnologia está inserida em cada competência da Base Nacional Comum Curricular: “A BNCC afirma que a educação deve garantir o desenvolvimento global humano. E como falar de desenvolvimento global sem falar em tecnologia? Sendo assim, a tecnologia está inserida na BNCC nas 10 competências. Isso acontece porque vivemos num mundo digital e não há mais como excluir a tecnologia do nosso dia a dia”, explica a profissional com mais de 20 anos no segmento e que também é membro da Comissão de Educação Digital da OAB de São Paulo.

Para entender melhor como a tecnologia está inserida em cada competência, Rosa categoriza a BNCC em três principais áreas: Cognitiva, social e pessoal. Conheça cada uma delas:

Competências cognitivas

Nesta categoria estão incluídas as habilidades da BNCC de cunho cognitivo, que são:

1) Conhecimento;

2) Pensamento científico, crítico e criativo;

3) Argumentação.

Como já vimos na primeira matéria da série, essas habilidades visam explicar e entender a realidade, promovendo o conhecimento de mundo. “A tecnologia integra-se nessas habilidades uma vez que, para entender e explicar a realidade em que estamos inseridos precisamos considerar o fato de que vivemos num mundo digital. Com as tecnologias, trabalhamos em rede e é nessa rede que precisamos estar em constante processo de colaboração”, diz ela, destacando o uso da internet e sua dinâmica colaborativa, fazendo com que as informações circulem e se complementem.

Aliás, são as ferramentas on-line que auxiliam alunos a desenvolver o pensamento crítico, investigativo e argumentativo. “Pela internet circulam informações de todo tipo, sejam elas verdadeiras ou falsas, e que precisam ser pesquisadas considerando realidade e mito, verdade e mentira, permitindo a compreensão do que são fatos e que podem e devem ser compartilhados”, ressalta Rosa.

Competências sociais

Na BNCC, quando falamos sobre a dimensão do aluno na sociedade, categorizamos um grupo com as seguintes habilidades:

4) Repertório cultural;

5) Comunicação;

6) Cultura digital:

7) Responsabilidade e cidadania.

Mais uma vez, são as tecnologias e, principalmente, a internet que nos oferecem espaços de compartilhamento de informações, bem como a expressão de sentimentos e experiências. E o que são nossas manifestações senão expressões artísticas, culturais e sociais?

A expressão de nossos sentimentos, dos nossos quereres, dos nossos anseios de mudança – que configuram uma expressão artística, social e cultural – está disseminada nos domínios digitais. Além disso, por meio da rede de internet, hoje é possível ter acesso ao acervo de diversas instituições, desde galerias à museus, ampliando ainda mais o repertório cultural acessível”, enfatiza Rosa, lembrando também que a internet permite, de maneira fácil, que cada um possa produzir o seu próprio conteúdo.

Ao abordarmos outras das habilidades acima citadas, como a comunicação, lembramos que ela vai muito além do universo on-line da internet e dos aplicativos, envolvendo escrita, fala, expressões, gestos e demais linguagens corporais. Mesmo nesse sentido, temos o auxílio das tecnologias. “Nesse ponto, a educação digital deve ser muito mais que meramente utilitarista, mas também prezar pelo desenvolvimento de relações pautadas no respeito, responsabilidade e colaboração. E esses valores transcendem o espaço digital/tecnológico, tornando-se um aprendizado para a convivência na sociedade”, afirma Rosa.

Competências pessoais

Para o terceiro grupo de competências, Rosa elenca as seguintes habilidades:

8) Trabalho e projeto de vida;

9) Autoconhecimento e autocuidado;

10) Empatia e cooperação.

Ao atingirmos a esfera pessoal, bandeira levantada com força pela BNCC, Rosa considera que as competências e habilidades socioemocionais também estão diretamente ligadas à tecnologia, uma vez que o uso dessas ferramentas promove os relacionamentos interpessoais. “Esse relacionamento é necessário para sermos compreendidos e compreendermos o outro”, salienta.

Ainda na opinião de Rosa, o ambiente digital é capaz de nos ensinar, dia após dia, a trabalhar competências pessoais importantes, como a responsabilidade e o respeito: “Não temos como entender o mundo que vivemos sem considerar a tecnologia mantendo a liberdade, autonomia, criticidade e responsabilidade. É preciso saber o que compartilhar, como compartilhar, por que compartilhar. O respeito está intimamente relacionado às relações pessoais em qualquer ambiente seja ele tecnológico ou não”.

Mais tecnologia, maior a vigilância

A tecnologia é parte integrante do desenvolvimento educacional do indivíduo, mas assim como se torna um tema substancial na realidade dos colégios, pode trazer dúvidas para uma parcela de profissionais, instituições e até pais que se preocupam com exageros e limites éticos.

Para a tranqüilidade de quem traz essas dúvidas, é correto afirmar que, na BNCC, todas as competências irão passar pelas questões do trabalho ético e segurança da informação e que essas temáticas estão inseridas no contexto pedagógico do currículo.

“A BNCC não invalida a LDB, ela permite autonomia no que diz respeito à formação e informação e outros assuntos. A LDB fala sobre a compreensão da tecnologia e o desenvolvimento de atitudes e valores, que nada mais é do que o cuidado com a ética e a informação. Portanto, as escolas precisam levar em consideração essa temática dentro do ambiente escolar”, esclarece Rosa citando Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional.

Dicas:

Conheça alguns dos órgãos que podem auxiliar o colégio na busca por informações sobre ética e segurança da informação:

CGI.br – Site do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Órgão governamental que ajuda a regular a internet no Brasil e disponibiliza publicações relacionadas à ética e cidadania digital.

NIC.br – Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Órgão vinculado ao CGI e que apresenta informações relevantes para se trabalhar ética e cidadania digital em sala de aula.

Safernet.org.br – Associação civil de direito privado que trabalha a ética e a segurança da informação em todos os aspectos da sociedade, inclusive com apoio de vítimas de abuso na internet e material didático para todos os níveis de ensino.

O papel do aplicativo de comunicação na BNCC

Quando o assunto é BNCC e todas as transformações que ela prevê nas matrizes curriculares Brasil afora, fica fácil entender que a comunicação escolar se torna um item ainda mais importante para o colégio a partir de 2020. Afinal, como neste processo de adaptação à Base estão envolvidas as vidas de milhões de alunos, é essencial que haja uma comunicação fluida, segura e eficaz entre as instituições e os pais.

Nesse sentido, entram em ação ferramentas como o aplicativo de comunicação escolar, uma ferramenta tecnológica capaz de encurtar distâncias e facilitar o entendimento.

A comunicação deve ter um espaço privilegiado na família, na educação, seja em casa ou fora dela, no trabalho, nas relações pessoais, enfim, na vida”, afirma Rosa, que, sobre os aplicativos de comunicação escolar, ainda diz: “Esse tipo de ferramenta proporciona, na prática, como a ética pode ser utilizada. A aprendizagem funciona quando ela tem significado para o aprendiz. Sendo assim, ao utilizar a ferramenta o usuário pode aplicar o que aprendeu em palestras proporcionadas pela escola e dicas deixadas no próprio feed de notícias, inseridas pela escola ou pelo próprio app”.

Especial BNCC: As mudanças do Ensino Médio e a reta final para adequações

A entrega dos novos projetos curriculares nas secretarias regionais deve ser feita até o início de 2020, mas ainda há muito a ser feito, principalmente quando o assunto é a nova Base do Ensino Médio e as mudanças que ela implica

Nosso Especial sobre a Base Nacional Comum Curricular continua, mas, nesta terceira matéria, abordamos um dos itens mais polêmicos do projeto de maneira geral: a etapa do Ensino Médio.

Nos textos anteriores, trouxemos um panorama geral sobre o assunto e suas diretrizes e discutimos o que exatamente mudou para o ensino particular.

Agora, buscamos entender a polêmica acerca da última etapa da Base, que culminou em muitos questionamentos por parte de toda classe escolar e chegou a provocar demissões no alto escalão do MEC.

Aprovada oficialmente em 4 dezembro de 2018 pelo CNE (Conselho Nacional de Educação), esta etapa da BNCC mantém o prazo de vigência para o início do ano letivo de 2020, tornando 2019 um ano ainda mais decisivo (e mais curto!) para as adaptações.

BNCC do EM na teoria

Entender e traduzir as mudanças que o documento prevê para a realidade da educação brasileira no Ensino Médio é um grande desafio. A intenção é a melhor: elevar a qualidade do ensino no país de modo a atender os anseios da juventude, preparando-a para desenvolver suas habilidades e melhor atender ao disputado mercado de trabalho futuro. Mas, na prática, as mudanças requerem atenção.

Um dos principais focos de mudança é a carga horária, que passa de 2400 horas para 3000 horas no ensino diurno e oferece ao estudante do Ensino Médio noturno a possibilidade de estender o curso por mais de três anos, desde que o mínimo de horas-aulas seja 2400 até 2021, chegando a 3000 a partir de 2022.

A interdisciplinaridade e a flexibilidade são outros destaques. Aqui, o objetivo principal é garantir a autonomia do estudante. De acordo com a sua realidade local, cada escola, pública ou privada, elabora seu currículo, desde que se comprometa em possibilitar escolhas ao aluno. Assim, o estudante determina as matérias que mais lhe interessarem para se aprofundar, tudo isso, já de olho na formação técnica e profissional que vai ao encontro das demandas do mercado de trabalho.

As 10 competências gerais da BNCC valem também para o Ensino Médio. Esta nova etapa da Base, porém, vem organizada por áreas disciplinares, que interagem entre si para tornar o currículo mais adequado à realidade.

A divisão entre as áreas de conhecimento fica assim:

  • Linguagens e suas Tecnologias (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa);
  • Matemática;
  • Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química);
  • Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia).

BNCC do EM na prática

Levando em consideração um panorama rápido sobre as estruturas escolares Brasil afora hoje, a dúvida que fica é: será possível oferecer ao aluno do ensino médio, na prática, toda essa liberdade de escolha que a BNCC propõe?

“A dificuldade em implantar a BNCC no Ensino Médio, dentro das áreas de conhecimento propostas, está no fato de a escola precisar operar mudanças estruturais e promover uma reorganização curricular. Não é tão simples, por exemplo, que uma escola com três turmas de Ensino Médio consiga se organizar para propor aos alunos frentes tão fragmentadas”, exemplifica Maria Helena Galucci, profissional com mais de 40 anos de atuação na gestão escolar e consultora da Humus Educacional.

A verdade é que já não há mais o que discutir, a fase de estudos da BNCC do Ensino Médio já passou e contou com a opinião de muitos profissionais gabaritados. Aliás, as mudanças acontecem, a exemplo da primeira etapa da BNCC, baseadas em cases de sucesso de países que já trabalham nesse modelo e vêm obtendo sucesso nos resultados, como Estados Unidos, França e Chile.

Para Maria Helena, por mais que pareça algo difícil neste momento, a proposta é válida e totalmente possível. “Não tem outra saída. O que precisamos fazer é encontrar um bom caminho na organização dessas escolas. A gestão precisa entender o custo-benefício dessas mudanças e disponibilizar pessoas com vontade e preparo. Tem que haver uma reestruturação total, desde o administrativo até o pedagógico”, explica ela que, com base em suas viagens visitando escolas em países-modelo, constata que a BNCC do Ensino Médio é o primeiro grande passo rumo a um sistema educacional mais eficaz.

Ensino Médio particular

Na matéria passada, vimos que o ensino particular já tem se adequado à proposta da BNCC há anos com um trabalho voltado para as competência e habilidades além do patamar cognitivo. Mas mesmo para essa parcela da gestão educacional do país, a etapa do Ensino Médio remete a questionamentos.

“Nós também viemos acompanhando a etapa da BNCC do Ensino Médio, quando ela foi oficializada nós já sabíamos do quadrante de alteração. Há alguma criticas, é natural, então ainda vamos aguardar a fase de regulamentação regional para irmos adiante. O fato é que a as novas propostas terão que dialogar com os processos seletivos já existentes no Brasil, como o ENEM e os vestibulares”, alerta Profº Marco Antônio Almeida Del’Isola, gestor pedagógico do colégio Mackenzie de Brasília.

A dúvida que fica é: Preparados em suas habilidades manuais e socioemocionais para o mercado de trabalho, esses jovens serão capazes de enfrentar os desafios dos vestibulares? Os tradicionais processos também deverão mudar?

Reavaliando e revalidando

Com tantas mudanças à vista, o que podemos atestar é que 2019 será um ano de muito trabalho para os colégios. “O entendimento sobre a BNCC ainda não chegou a sua totalidade, as escolas estão trabalhando nisso e há grande interesse por parte delas, mas é preciso continuar investindo nessa formação para que as mudanças sejam efetivas”, ressalta Maria Helena.

Ainda para a especialista, que hoje presta consultoria sobre o tema BNCC nas escolas, outro segredo além do investimento na formação dos professores é a reavaliação do currículo e das atividades na prática. Se em 2018 os colégios puderam criar seus planos, 2019 chega para que essas ações sejam colocadas em prática e avaliadas. Até 2020, quando a escola entrega seu plano para a secretaria regional de educação, todas as ideias estarão validadas e prontas para dar bons frutos.

Mais

Na próxima matéria deste especial você confere um verdadeiro dossiê sobre a tecnologia e a ética, um capítulo à parte na BNCC. Não perca!

Conselho de classe do futuro: sua escola está preparada?

Conheça a ferramenta que alia algoritmos, análise comportamental e ciência de dados para propor uma avaliação de aluno muito além do boletim de notas e faltas

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Que tipo de aluno você foi durante sua vida escolar? Era daqueles com as melhores notas nas provas e que sempre ganhava estrelinhas, ou vivia levando bronca dos pais porque o professor havia reclamado de seu mau comportamento e sua nota vermelha em matemática? Se não se enxerga em nenhum desses cenários, então provavelmente era como a grande maioria dos estudantes, cujos pequenos grandes feitos diários geralmente passavam despercebidos pelo corpo docente.

Por mais que estejamos vivendo uma constante evolução e que iniciativas como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) estejam projetando mudanças na direção de uma educação integral, com destaque para o desenvolvimento socioemocional, não é raro se deparar com escolas que ainda classificam seus alunos dentro dos três patamares citados acima.

Foi pensando no desafio de desconstruir o tradicional modelo de avaliação de alunos e de trabalhar da melhor maneira os talentos de uma criança que nasceu o Skola, um software que traz informações cognitivas e comportamentais da criança em forma de gráficos, proporcionando a coordenadores pedagógicos uma análise mais profunda e facilitada.

 

Um olhar qualitativo do aluno

Voltado para todo o ensino básico, o software funciona como um assistente do coordenador. Nele, o professor registra ações do dia a dia de um aluno, como por exemplo, se ele se mostrou criativo na resolução de um problema, se ele foi solidário a um amigo ou se deixou de fazer alguma atividade. Por meio de um dashboard colorido, os coordenadores podem enxergar tudo o que foi apontado e, junto com os pais, criar soluções para um desenvolvimento positivo do aluno.

“A gente entende que matemática é muito importante, que adquirir conhecimento é essencial, mas estamos propondo que os colégios olhem esses alunos com empatia, que os conheçam melhor e os ajudem a desenvolver habilidades socioemocionais”, afirma Henrique Souza, um dos sócios da startup e que decidiu abraçar a causa justamente por não poder ter contado com uma ferramenta como essa quando seus filhos eram estudantes.

“Minha filha não é de exatas, e, no colégio, me diziam que ela precisava estudar mais matemática, mas ela tinha até um professor particular. Hoje, a Luiza é designer e mora em Amsterdã, está bem empregada, feliz. Ou seja, ela ficou 15 anos no colégio e eles não foram capazes de me dizer que ela era muito criativa. Se você não é um pai atento, não consegue ajudar o seu filho a encontrar o caminho”, conta Souza, que acredita no poder da escola em influenciar o futuro do aluno.

 

Um novo conceito em conselho de classe

O futuro é agora para as escolas que apostam nessa tecnologia e na ideia de que as competências socioemocionais devem ser estimuladas e avaliadas. Antes mesmo das reuniões de conselho, os professores e coordenadores são alertados por um robô assistente, para o fato de que um determinado aluno não tenha recebido uma avaliação há alguns dias. Ele interliga os dados de todos os professores de diferentes matérias e sinaliza quando um aluno tem menos avaliações, convidando o professor a indicar alguma ação.

No conselho de classe, ou mesmo na reunião de pais, os professores e coordenadores podem abrir o painel e discutir os pontos juntos, de maneira transparente e aprofundada.

O painel dificulta, por exemplo, a criação de rótulos. Em conselhos de classe, hoje, corre-se o risco de o professor acabar trazendo para a discussão temas somente da memória recente, excluindo todo um histórico de convivência e desenvolvimento da criança. “A informação tem sempre dois lados. O aluno mentiu? Na cabeça dele não, então, precisamos entender porque ele não trouxe a verdade. Assim é o novo boletim, que vai com as notas, as observações positivas e, ainda, um relatório das habilidades, expondo o aluno de forma integral”, explica Souza.

 

Integração e praticidade

A avaliação socioemocional lançada pelo colégio é mais uma ferramenta que pode ser integrada ao aplicativo de comunicação. Bastante difundida como meio de comunicação escolar e que contém funcionalidades de apoio ao diário de classe, o IsCool App já é uma das principais ferramentas do professor e do coordenador em sala de aula e tornará o a adoção da avaliação das habilidades mais prática e rápida.

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Mais

Educação socioemocional é um tema cada vez mais constante e que já foi pauta aqui no Blog do IsCool App, como uma das fortes tendências do cenário educacional atual. Acesse a matéria completa aqui.

A urgência pela educação socioemocional e a ansiedade por seus resultados concretos

Tido como a evolução da educação, o desenvolvimento de habilidades, competências e virtudes em sala de aula já é uma realidade; o desafio, agora, é tratar o tema de maneira orgânica dentro de toda a grade curricular e, ainda, colher um retorno efetivo e rápido dessas ações

Educação socioemocional_educação para o mundo_ tendências educação 2018

As escolas já concluíram que tão ou mais importante que ensinar fórmulas matemáticas é formar adultos com valores bem construídos e uma nota alta no quesito inteligência emocional. Mas à medida que a sociedade evolui e se transforma, aumentam ainda mais as expectativas em torno dos resultados que a educação socioemocional traz a cidadãos do futuro.

Assunto altamente valorizado no cenário educacional, e também fator decisivo para escolha dos pais hoje, o ensino de virtudes é tema desta quarta matéria da série sobre tendências da educação 2018.

Confira o que estudos recentes e especialistas na formação de caráter humano trazem para o ensino socioemocional e quais as tendências a que colégios e pais devem estar atentos para que o resultado desse importante esforço seja efetivo em um futuro próximo.

 

Mas, afinal, no que consiste o ensino que prepara para a vida?

A educação socioemocional pode ser considerada a chave para uma sociedade mais equilibrada, pois acredita-se que, por meio dela, seja possível ensinar virtudes antes só tratadas em desenhos animados, como a coragem, a justiça, a generosidade e a amizade, por exemplo.

Uma vez levadas para a sala de aula, as virtudes deverão ser praticadas pelos alunos em atividades dentro e fora da escola. E, se praticadas, se tornarão recorrentes.
Dessa maneira, alunos passam entender e saber como controlar emoções, respeitar o próximo e sentir empatia por ele, além de tomar decisões mais responsáveis.

Direto para seus lares, os alunos criam uma corrente de virtudes, impactando toda uma sociedade. Daí a importância da pauta e, indiscutivelmente, da colheita desses resultados em um ritmo que acompanhe a evolução da sociedade e as transformações diárias que vivemos.

 

2018, O ano da educação socioemocional

Se o seu colégio ainda não se preparou 100% para a inclusão do ensino de habilidades e competências socioemocionais, é hora de correr. Especialistas apontam que este será um ano importante para o tema, principalmente porque ele já vem sendo trabalhado pela nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteia e estabelece objetivos de aprendizagem no ensino básico brasileiro.

Entre suas dez principais competências, a BNCC define como imprescindíveis termos como: conhecer-se, apreciar-se, cuidar da saúde física e emocional, reconhecendo as próprias emoções e as dos outros.

Não bastará mais as escolas dizerem que são fundadas em cima de valores, elas terão que mostrar que o são por meio de ações concretas. Cada vez mais, a partir da ampliação do conhecimento de pais e professores sobre o tema, as escolas definitivamente irão aderir a projetos consistentes de educação socioemocional”, reforça Alessandro Ayudarte, diretor pedagógico do Nuvem9Brasil e representante oficial do Cloud9World.

Criado por um grupo de educadores nos Estados Unidos, o Cloud9World é um programa de educação de competências socioemocionais que trabalha autogerenciamento, consciência social, habilidades de relacionamento, decisões responsáveis e autoconsciência. Por meio de materiais didáticos bilíngues e treinamento de professores, sua metodologia se inspira no reino animal para tratar temas como tolerância, generosidade e criatividade e já atende mais de 500 mil alunos.

 

Matéria deve ser inserida de maneira orgânica na grade curricular

A educação socioemocional não deve ser tratada como matéria à parte. Segundo Ayudarte, que também é filósofo e músico com experiência de 15 anos na educação privada e do terceiro setor, com as ferramentas adequadas, professores podem conectar temas como gentileza, cooperação, honestidade ou perseverança à matemática, ciências ou línguas.

As competências socioemocionais podem ser ensinadas e desenvolvidas dentro dos currículos, sem alterá-los, de forma a não atrapalhar os planejamentos pedagógicos das escolas e ainda contribuir positivamente com o aprendizado e a melhoria dos resultados acadêmicos”, explica Ayudarte, citando estudos realizados pelo Summer Institute for Educators, da Barkley University.

Aqui no Brasil, um documento produzido pelo Instituto Ayrton Senna (IAS) em parceria com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca as competências que combinam as dimensões cognitivas e socioemocionais para a educação do século 21. A proposta enfatiza que o desenvolvimento dessas habilidades tem sido importante no processo de aprendizagem dos alunos, impactando diretamente e de maneira positiva os resultados em matérias como Português e Matemática.

 

Para ficar atento em 2018: Neurociência e meditação em busca de um ensino pleno

A neurociência comprova, em estudos recentes, que a educação socioemocional altera profundamente o cérebro “Ele (o cérebro) muda em decorrência de estímulos, o que chamamos de neuroplastia. Este fenômeno ocorre no córtex pré-frontal, uma área do cérebro de convergência das emoções e da razão (cognitivo). A ciência moderna aponta que estes dois aspectos se relacionam em uma mesma área do cérebro e não em áreas separadas”, ilustra Ayudarte, que ainda cita estudo da Universidade de Winsonsin sobre alterações significativas da educação socioemocional nos processos de educação.

Uma dessas ações que podem transformar o processo de aprendizagem e auxiliar na formação do aluno-cidadão é a meditação, prática milenar que já tem sido aplicada nas escolas mundo afora e que chega com força ao Brasil. Sob a ótica científica, a meditação ajuda na diminuição da ansiedade e aumenta a capacidade de atenção e concentração. “Por si só, estes dois fatores já contribuiriam em muito para o cotidiano escolar de muitas crianças e jovens que vivem seus processos educativos sob grande pressão – vide o stress gigantesco do Enem”, finaliza Ayudarte.