Especial BNCC: As mudanças do Ensino Médio e a reta final para adequações

A entrega dos novos projetos curriculares nas secretarias regionais deve ser feita até o início de 2020, mas ainda há muito a ser feito, principalmente quando o assunto é a nova Base do Ensino Médio e as mudanças que ela implica

Nosso Especial sobre a Base Nacional Comum Curricular continua, mas, nesta terceira matéria, abordamos um dos itens mais polêmicos do projeto de maneira geral: a etapa do Ensino Médio.

Nos textos anteriores, trouxemos um panorama geral sobre o assunto e suas diretrizes e discutimos o que exatamente mudou para o ensino particular.

Agora, buscamos entender a polêmica acerca da última etapa da Base, que culminou em muitos questionamentos por parte de toda classe escolar e chegou a provocar demissões no alto escalão do MEC.

Aprovada oficialmente em 4 dezembro de 2018 pelo CNE (Conselho Nacional de Educação), esta etapa da BNCC mantém o prazo de vigência para o início do ano letivo de 2020, tornando 2019 um ano ainda mais decisivo (e mais curto!) para as adaptações.

BNCC do EM na teoria

Entender e traduzir as mudanças que o documento prevê para a realidade da educação brasileira no Ensino Médio é um grande desafio. A intenção é a melhor: elevar a qualidade do ensino no país de modo a atender os anseios da juventude, preparando-a para desenvolver suas habilidades e melhor atender ao disputado mercado de trabalho futuro. Mas, na prática, as mudanças requerem atenção.

Um dos principais focos de mudança é a carga horária, que passa de 2400 horas para 3000 horas no ensino diurno e oferece ao estudante do Ensino Médio noturno a possibilidade de estender o curso por mais de três anos, desde que o mínimo de horas-aulas seja 2400 até 2021, chegando a 3000 a partir de 2022.

A interdisciplinaridade e a flexibilidade são outros destaques. Aqui, o objetivo principal é garantir a autonomia do estudante. De acordo com a sua realidade local, cada escola, pública ou privada, elabora seu currículo, desde que se comprometa em possibilitar escolhas ao aluno. Assim, o estudante determina as matérias que mais lhe interessarem para se aprofundar, tudo isso, já de olho na formação técnica e profissional que vai ao encontro das demandas do mercado de trabalho.

As 10 competências gerais da BNCC valem também para o Ensino Médio. Esta nova etapa da Base, porém, vem organizada por áreas disciplinares, que interagem entre si para tornar o currículo mais adequado à realidade.

A divisão entre as áreas de conhecimento fica assim:

  • Linguagens e suas Tecnologias (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa);
  • Matemática;
  • Ciências da Natureza (Biologia, Física e Química);
  • Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia).

BNCC do EM na prática

Levando em consideração um panorama rápido sobre as estruturas escolares Brasil afora hoje, a dúvida que fica é: será possível oferecer ao aluno do ensino médio, na prática, toda essa liberdade de escolha que a BNCC propõe?

“A dificuldade em implantar a BNCC no Ensino Médio, dentro das áreas de conhecimento propostas, está no fato de a escola precisar operar mudanças estruturais e promover uma reorganização curricular. Não é tão simples, por exemplo, que uma escola com três turmas de Ensino Médio consiga se organizar para propor aos alunos frentes tão fragmentadas”, exemplifica Maria Helena Galucci, profissional com mais de 40 anos de atuação na gestão escolar e consultora da Humus Educacional.

A verdade é que já não há mais o que discutir, a fase de estudos da BNCC do Ensino Médio já passou e contou com a opinião de muitos profissionais gabaritados. Aliás, as mudanças acontecem, a exemplo da primeira etapa da BNCC, baseadas em cases de sucesso de países que já trabalham nesse modelo e vêm obtendo sucesso nos resultados, como Estados Unidos, França e Chile.

Para Maria Helena, por mais que pareça algo difícil neste momento, a proposta é válida e totalmente possível. “Não tem outra saída. O que precisamos fazer é encontrar um bom caminho na organização dessas escolas. A gestão precisa entender o custo-benefício dessas mudanças e disponibilizar pessoas com vontade e preparo. Tem que haver uma reestruturação total, desde o administrativo até o pedagógico”, explica ela que, com base em suas viagens visitando escolas em países-modelo, constata que a BNCC do Ensino Médio é o primeiro grande passo rumo a um sistema educacional mais eficaz.

Ensino Médio particular

Na matéria passada, vimos que o ensino particular já tem se adequado à proposta da BNCC há anos com um trabalho voltado para as competência e habilidades além do patamar cognitivo. Mas mesmo para essa parcela da gestão educacional do país, a etapa do Ensino Médio remete a questionamentos.

“Nós também viemos acompanhando a etapa da BNCC do Ensino Médio, quando ela foi oficializada nós já sabíamos do quadrante de alteração. Há alguma criticas, é natural, então ainda vamos aguardar a fase de regulamentação regional para irmos adiante. O fato é que a as novas propostas terão que dialogar com os processos seletivos já existentes no Brasil, como o ENEM e os vestibulares”, alerta Profº Marco Antônio Almeida Del’Isola, gestor pedagógico do colégio Mackenzie de Brasília.

A dúvida que fica é: Preparados em suas habilidades manuais e socioemocionais para o mercado de trabalho, esses jovens serão capazes de enfrentar os desafios dos vestibulares? Os tradicionais processos também deverão mudar?

Reavaliando e revalidando

Com tantas mudanças à vista, o que podemos atestar é que 2019 será um ano de muito trabalho para os colégios. “O entendimento sobre a BNCC ainda não chegou a sua totalidade, as escolas estão trabalhando nisso e há grande interesse por parte delas, mas é preciso continuar investindo nessa formação para que as mudanças sejam efetivas”, ressalta Maria Helena.

Ainda para a especialista, que hoje presta consultoria sobre o tema BNCC nas escolas, outro segredo além do investimento na formação dos professores é a reavaliação do currículo e das atividades na prática. Se em 2018 os colégios puderam criar seus planos, 2019 chega para que essas ações sejam colocadas em prática e avaliadas. Até 2020, quando a escola entrega seu plano para a secretaria regional de educação, todas as ideias estarão validadas e prontas para dar bons frutos.

Mais

Na próxima matéria deste especial você confere um verdadeiro dossiê sobre a tecnologia e a ética, um capítulo à parte na BNCC. Não perca!

Especial BNCC: O que mudou para o ensino privado?

Mesmo já trabalhando com as diretrizes da BNCC em seus currículos, instituições, redes e sistemas de ensino particular também vivem rotina de adequação; mudanças acontecem, principalmente, no quesito educação socioemocional e envolve a formação de professores

Se fizermos uma análise rápida do atual cenário da educação pública no Brasil, fica fácil de entender que a Base Nacional Comum Curricular chega com a importante missão de equalizar a aprendizagem e acelerar as transformações em salas de aula a uma nova realidade. Realidade esta já vivida pelo segmento de ensino particular há anos, em seus currículos com propostas de educação integral e modernas estruturas.

Entretanto, mesmo promovendo essas transformações na prática, as escolas, redes e os sistemas de ensino privado também vivem o período de adequação, afinal, a BNCC chegou para todos e com prazos a serem cumpridos.

Mas o que, de fato, muda na rotina dessas instituições? Como foi, para os gestores das escolas privadas, receber a BNCC? Entre as competências propostas, qual a de maior impacto?

Na segunda matéria do Especial BNCC do Blog do IsCool App, falamos do impacto da proposta no ensino particular tendo como base a opinião de profissionais com vasta experiência no segmento. De olho no prazo limite para a vigência da Base, vamos entender o que ainda deverá ser feito ao longo do ano no tocante ao assunto.

Clique aqui e leia a primeira matéria do especial que traz detalhes sobre a BNCC

Os alunos mudaram e a educação também

Com mais oportunidades, recursos e informação ao alcance, a rede de ensino particular, em geral, se posiciona na vanguarda, sempre atenta às transformações da sociedade. Recepcionando alunos nascidos na era tecnológica e em novas configurações familiares, há anos essas instituições seguem o movimento de adequação dos currículos e transformações físicas da tradicional sala de aula, recebendo com muita naturalidade as premissas da BNCC.

“O nicho das escolas particulares já vinha sentindo a necessidade de mudança de paradigma e buscava entender a necessidade do momento. Nós estamos na educação 4.0. Já passamos pela 3.0, que foi a introdução da tecnologia e interatividade que a BNCC propõe. Aliás, essa foi uma demanda das próprias escolas, da necessidade de atender os alunos de hoje inseridos no mundo digital”, conta Maria Helena Galucci, profissional com mais de 40 anos de atuação na gestão de uma rede de escolas particulares e consultora da Humus Educacional.

Com 85 anos de atuação, o Colégio Cristo Rei, mantido pelas Irmãs Agostinianas Missionárias em São Paulo,é um exemplo de que tradição e contemporaneidade devem andar lado a lado. Participando ativamente das discussões em torno da BNCC, com presença em audiências públicas e palestras sobre a elaboração do documento, a instituição conta que a escola recebeu com tranqüilidade as mudanças.

“O colégio vem acompanhando as discussões sobre currículo ao longo dos seus 85 anos. Em nossa proposta pedagógica, já trabalhamos com as 10 competências gerais da BNCC. Na prática, realizamos algumas pequenas alterações na grade curricular, dando ênfase nas formações para professores para trabalhar com atenção, principalmente, às competências sócioemocionais”, afirma Rosangela Jacob, doutora em educação e diretora do colégio Cristo Rei.

Esforços se concentram na preparação dos professores

Sem dúvidas, a formação e atualização dos professores envolvendo os temas da BNCC se tornaram o foco dos planejamentos dos colégios particulares. Afinal, é este profissional que vai colocar em prática o currículo e conduzir as mudanças. Ações nesse sentido se iniciaram em 2018, mas estão se intensificando em 2019.

“Vivemos uma realidade pedagógica eloquente e, por isso, nos tornamos uma cultura de organização aprendente. Para fazer intervenções mais efetivas no aprendizado do aluno, temos que aprender muito”, reforça o Profº Marco Antônio Almeida Del’Isola, gestor pedagógico do Mackenzie de Brasília, membro do conselho de educação do Distrito Federal e parte da comissão de legislação e normas do mesmo conselho.

Ainda para ele, mesmo que as aprendizagens requeridas pela BNCC estejam aquém do nível de aprendizado já consolidado pela sua equipe, o tema se tornou pauta dos treinamentos. “Temos formação de todos os professores e orientadores, sem exceção. Todos nós participamos desse movimento no sentido de aprender e refletir acerca da nossa ação, para que nosso processo se torne mais eficaz. Desde o final de 2017, já aprendemos mapas conceituais, aprendizagem significativa e tivemos estudos das metodologias ativas”, complementa Del’Isola.

No Colégio Cristo Rei, a proposta de formação dos professores tem foco na BNCC também desde que a Base foi aprovada. “Os professores dos diversos segmentos e disciplinas organizaram-se em grupos de estudos. Os pontos das discussões foram apresentadas e problematizadas com a escola como um todo, com mediação da coordenação pedagógica”, explica Rosangela.

Professores fora da zona de conforto

Na visão da consultora Maria Helena Galucci, a intensificação na preparação dos educadores veio ao encontro de uma outra necessidade, a do engajamento dos professores: “Na prática, de inicio, houve uma resistência por parte dos professores, principalmente os que já atuam há mais tempo. Considerando a condição e o gabarito profissional, vemos uma queda muito acentuada na formação de professores. A BNCC veio, então, para tirar as pessoas da zona de conforto, porque ela é uma realidade legal, quem não se apropriar vai estar fora”, afirma.

Enquanto os professores se apropriam da nova base e das novas diretrizes, a escola mais atenta já colhe grandes resultados práticos. Neste novo cenário, os professores passam a ser facilitadores do aprendizado e os alunos se tornam protagonistas do próprio conhecimento, construindo a sociedade do futuro.

Habilidades socioemocionais têm maior destaque

É de consenso que a BNCC não infringe a autonomia das instituições privadas, isso também porque a Base deixa claro que as transformações devem ser feitas de acordo com a realidade de cada escola. O que se vê é que os conselhos regionais de ensino e os próprios colégios determinam as competências prioritárias a serem trabalhadas.

Entretanto, de todas as diretrizes apresentadas pela BNCC, as que envolvem as habilidades socioemocionais são a de maior destaque e também as que estão requerendo maior atenção por parte das instituições privadas, mesmo que temas como coletividade e ética já sejam trabalhados em sala.

“Destacamos a importância sobre a concepção de educação a partir das interações do eu com o mundo. A atenção à diversidade de saberes e vivências culturais. A empatia e o diálogo como formas de ser e estar no mundo”, explica Rosangela sobre as principais competênciasselecionadas pela equipe do Colégio Cristo Rei de acordo com a proposta educacional da instituição.

“Quando a BNCC aponta caminhos socioemocionais, ela está legitimando coisas que já procurávamos fazer, como saber ouvir, ter empatia, se colocar no lugar do outro, trabalhar em grupo. Tem a ver com nosso dia a dia. Mas a educação socioemocional é, sem dúvidas, a competência de maior destaque pela importância da formação de caráter da pessoa”, emenda Marco Antônio sobre a proposta de absorção da BNCC por parte do Mackenzie Brasília.

Na próxima matéria do Especial BNCC aqui no Blog do IsCool App, especialistas destacam temas ainda delicados, como a BNCC no Ensino Médio e a ética. Não perca!

IsCool App no GEduc

Congresso que reuniu mais de 600 pessoas ligadas à educação no Brasil gerou novas discussões em torno do futuro da educação e destacou a o uso da tecnologia na sala de aula

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Público atento durante a abertura do evento

Respirar educação, espirar novas ideias. Foi assim o clima pelos corredores do 15ª GEduc, o maior congresso de educação do Brasil. Presente entre os expositores do evento, O IsCool App garantiu presença e bons negócios entre os educadores, coordenadores e diretores de escolas privadas de todo o país, que somaram cerca de 600 congressistas ao total.

Sob o tema “Inspiração para mudanças, insights para soluções”, o GEduc se voltou para o uso da tecnologia em sala de aula, reforçando o momento do IsCool App e colocando-o no centro do palco. “O evento traz um reforço muito importante para o mote principal do nosso trabalho, que é comunicação com inovação, agilidade e responsabilidade. É um grande prazer poder fazer parte desse momento histórico e decisivo para a educação no Brasil”, afirma Ramin Shams, diretor-presidente do IsCool App.

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Mesa de atendimento do IsCool App durante o GEduc; oportunidade de networking

 

Visão geral

Durante a abertura oficial, a apresentação dos números da educação privada no Brasil traçou um panorama geral do mercado e chamou a atenção para sua importância em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), que atinge o patamar de 1,4%, com R$ 62 bilhões envolvidos. No total, são 15 milhões de alunos matriculados em escolas particulares, do infantil ao superior, gerando 2,4 milhões de postos de trabalho e 750 mil professores. Com este cenário de fundo, cada palestra, oficina e atividade do congresso se pautou no futuro e nas estratégias para potencializar a gestão da educação.

 

Leandro Karnal

Os holofotes estiveram apontados para o professor Dr. Leandro Karnal, historiador da Unicamp e figura de destaque nas mídias, que ministrou a palestra magna aos participantes. No período de uma hora e com muito bom humor, Karnal apontou as estratégias para uma boa gestão da comunicação. Falou da importância da inclusão tecnológica, mas deixou claro que, formação, bom planejamento e informação são essenciais para o futuro da educação e garantia de boas aulas. O professor ainda prendeu a atenção dos congressistas com assuntos como a crise, ética, liderança e os desafios dos problemas atuais da gestão educacional, entre eles o pessimismo, isolamento e procrastinação. Em sua mensagem final, ressaltou a importância do assunto: “Educação é empoderamento. Educação e alfabetização são permanentes”.

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Leandro Karnal prendeu a atenção do público com palestra regada a bom humore dicas de estratégias para o sucesso dentro de sala de aula

 

Mudanças futuras

Claudia Costin, professora e gestora pública, ex-ministra da república, atentou sobre a questão da qualidade do ensino e sobre a importância da educação para todos. “Escolarização não é sinônimo de aprendizagem. As crianças estão na escola, mas não estão aprendendo. A escola tem que ensinar a pensar”, afirmou Claudia. Com toda sua bagagem na educação dentro e fora do Brasil, a palestrante prendeu a atenção do público com dados atuais e premissas futuras que têm a intenção de transformar o ensino.

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Dinâmica do evento promoveu a reunião de gestores e educadores de todo o Brasil

Prêmios

Ao longo dos três dias, foram apresentados alguns projetos do PNGE 2017 (Prêmio Nacional de Gestão Educacional). Do ensino fundamental ao superior, o prêmio selecionou práticas de sucesso de instituições de ensino com gestores de todo o Brasil.

 

Mudanças na prática

O último dia do evento foi reservado para um grande painel, composto por diversos nomes ligados à comunicação e ao marketing de grandes instituições e empresas, como o Google e Microsoft. Os debates trouxeram à atenção dos congressistas os novos métodos de ensino baseados em tecnologia de ponta e a profunda integração entre escola e aluno. Ainda foram discutidas idéias para a gestão do marketing educacional e da importância da boa comunicação da escola com seu público.

Fotos: Andreia Naomi