Coronavírus: O que é o modelo híbrido de aprendizagem e como ele pode ajudar no retorno às aulas presenciais?

O Ensino Híbrido tem sido visto como solução durante o período de pandemia, mas envolve uma verdadeira mudança de mindset; confira a opinião do especialista sobre assunto e veja o exemplo de sucesso da Escola Evangélica Betel, de Manaus, que já abriu as portas para seus alunos

Mesmo quem não sabe o significado exato do Ensino Híbrido, imagina que é o que acontecerá no retorno às aulas presenciais durante a pandemia do Covid-19: uma mistura de ensino presencial com ensino remoto.

Se levarmos em conta a experiência da Escola Evangélica Betel, de Manaus/AM, isso se torna possível de acontecer nos demais estados do Brasil a partir do momento em que abrirem novamente as salas de aula para seus professores e alunos.

De acordo com a diretora pedagógica do colégio, Helen Aguiar, a pandemia acelerou o processo de implementação do ensino híbrido. “Nós percebemos que houve a melhora do rendimento escolar dos alunos a partir do retorno do ensino presencial”, conta a gestora.

Preparação para a retomada

A escola, que utiliza o IsCool App há 3 anos, retornou com o ensino presencial na primeira semana de julho de 2020, quando o estado do Amazonas autorizou a reabertura.

Segundo ela, atualmente a escola corre para nivelar o conhecimento dos alunos e cumprir o ano letivo com sucesso. “Monitoramos semanalmente a saúde de todos e, qualquer caso suspeito, devemos informar às autoridades. Até hoje, não houve contaminação e estamos reafirmando todos os processos para que isso não venha ocorrer”, esclarece.

Helen conta que a escola hoje tem 1.070 alunos. “Iniciamos o ano de 2020 com 1.200 alunos. Tivemos essas perdas durante o período da pandemia, mais fortemente na educação infantil, por conta de motivos financeiros ou porque as famílias acharam que não estava atendendo ao contrato”, diz.

Saldo positivo

O início do retorno, de acordo com a diretora, foi bem temeroso por parte das famílias. “Ainda estavam inseguros, mesmo a escola sendo rigorosa em protocolos de saúde. Então optamos pelo retorno com rodízio de 50% semanal. Hoje eles se sentem mais seguros, tanto que o número de presentes na primeira semana era de 20% e hoje é de 50%, o máximo permitido”, detalha.

As aulas na capital do Amazonas foram suspensas em 17 de março de 2020, com o decreto do governo pedindo o distanciamento social. O colégio Betel passou então a utilizar o Ensino a Distância (EAD), através de plataformas de ensino já utilizada por eles.

“Nós usamos aulas síncronas e assíncronas, encontros semanais pelo Google Meeting e aulas enviadas pelo Google Classroom, além do envio de atividades impressas e pela plataforma”, explica. Apesar de a escola estar preparada para o ensino remoto, a diretora acredita que as famílias não estavam. “A adaptação foi mais difícil para a família, mas hoje estão um pouco mais adaptados”, diz.

Também houve bastante queda na participação e rendimento dos alunos durante o período de isolamento social, segundo ela. “Muitos alunos relataram desmotivação, não queriam participar porque achavam chato, entre outros motivos”.

Comunicação sem ruído

A escola Betel, além de já estar preparada em termos de equipamento e internet, também diz ter obtido a eficácia necessária na comunicação com o uso do aplicativo de comunicação IsCoolApp antes mesmo da pandemia. “Como já utilizamos o IsCoolApp, não tivemos ruído de comunicação com os pais, pois eles estavam acostumados”.

Essa comunicação foi, inclusive, fundamental para o plano de ação de retorno às aulas presenciais. “Fizemos um plano de ação, com consultorias externas na área de educação e saúde para alinhar as práticas, principalmente em relação aos protocolos de segurança”, explica Helen.

De acordo com ela, a escola fez uma pesquisa em relação aos pais sobre o desejo de retornar ou não às aulas presenciais. “74% ficou a favor do retorno, mas ainda assim havia aqueles se sentindo inseguros. Diante disso, a escola optou por voltar a aula presencial, porém mantendo o ensino remoto para aqueles que preferiram ficar em casa”, ressalta.

Para a diretora, o aprendizado dessa experiência toda é que pessoas precisam de pessoas. “A educação é a base da nossa sociedade, é muito mais importante estarmos juntos, do que passar apenas conteúdo para eles. Esperamos que em 2021, não estejamos mais sofrendo pela questão do Covid”, finaliza.

O que é Ensino Híbrido?

Alguns especialistas falam apenas de uma mistura entre o ensino presencial e on-line. O fato é que existem muitas definições para o Ensino Híbrido, segundo Leandro Holanda, coautor do livro “Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação“.

“Defendo muito o ensino híbrido que fala de uma integração, como eu integro em sala de aula as atividades que são feitas presencialmente com as atividades on-line, como vou ajudar na personalização do processo, para que o estudante possa controlar de alguma forma o tempo e o ritmo no qual ele aprende”, diz Leandro, antecipando que essa definição é apoiada pelo pesquisador norte-americano Clayton Christensen, que inspirou sua obra.

Essa definição nasce de práticas das escolas inovadoras, pela observação, “Visitando escolas é que se chegou a essa definição e aos modelos de ensino híbrido, como sala de aula invertida, a rotação por estações ou mesmo a rotação individual”, acrescenta.

Para ele, a pandemia trouxe o assunto mais à tona, mas de maneira equivocada. “As pessoas estão relacionando educação remota com o ensino híbrido, mas poucas escolas estão fazendo ensino híbrido de verdade”, alerta.

De acordo com o especialista, muitas escolas estão preocupadas em sobrepor os momentos em que parte dos alunos estará em casa, enquanto outra parte estará na escola.

“Algumas escolas comentam que vão gravar as aulas, ou seja, as mesmas aulas que serão assistidas pelos alunos presenciais, serão vistas por quem ficou em casa. Perde-se aí muito essa possibilidade de integrar”.

E completa: “O grupo que poderia ter explorado algo on-line, poderia estar fazendo algo em casa e vice-versa. Algumas escolas estão avançando, mas há muito que avançar. No começo da pandemia não teve a oportunidade, mas agora terá tempo para se fazer essa análise, olhando e se inspirando no ensino híbrido”.

Risco de superficialização

O principal risco, segundo Leandro Holanda, é a superficializaçãodos processos do Ensino Híbrido, principalmente aqueles movidos a muita tecnologia, que não aprofundam no conhecimento.

Algumas escolas acham que a sala de aula invertida e rotação por estações é uma gincana, quando na verdade não é. Acho que tem uma janela de oportunidade imensa, mas ao mesmo tempo, a gente tem um problema nos próprios conceitos. Conceitos equivocados que não têm nada a ver com o conceito de ensino híbrido”, diz.

Segundo Holanda, que também é sócio da Tríade Educacional, o ensino híbrido é uma oportunidade para que os professores consigam integrar a transformação digital na sala de aula.

“Pensar no que faz sentido e no que se integra com as melhores práticas que faz o aluno aprender. Não apenas focar na tecnologia que fica de maneira superficial, não integrada ao processo de aprendizagem do estudante. É uma oportunidade que vai subsidiar a transformação das pessoas, é o que vai fazer com que a transformação digital faça sentido”, afirma.

O especialista acredita que o Ensino Híbrido pode dar certo se houver primeiro uma conscientização da importância da formação dos professores. “Formação de professores que faça com que o docente faça, reflita, não seja apenas teórica, sem planejar, sem compartilhar com outros professores. Essa formação pensada em homologia de processos, que ele vivencie o ensino híbrido como aluno”, explica.

Leandro lembra que o professor dá aula como ele aprendeu. “É preciso garantir esses momentos que também vão ser baseados em metodologias ativas, que eles vivenciem e possam levar para sua prática docente”. 

Educação híbrida tem futuro?

Para o especialista, já existem no momento presente alguns modelos de ensino híbrido que são mais inovadores. “Esses dependem de uma estrutura de organização de horários e espaço físico, mas alguns dependem mais do mindset, da forma de pensar do gestor e professor escolar”, ressalta.

O papel do gestor é muito importante, segundo Holanda, pois ajuda os professores nessa visão e na formação, garantindo momentos na dinâmica deles para reflexão de suas práticas. “Os professores devem passar por uma formação mais ativa, não apenas passando aquele monte de conceitos em slides, que hoje não faz mais sentido na formação de professores”, diz.

Projeto inicial

A experiência com o ensino híbrido de Leandro Holanda veio da sala de aula. “Em 2014, participei de um grupo de experimentação de ensino híbrido que foi um projeto da Fundação Lemann e do Instituto Península. Outros educadores também participaram”, conta.

Segundo ele, ficaram um ano planejando juntos, aplicando as práticas, refletindo sobre as aplicações, entendendo um pouco desses modelos e, no final, escreveram um livro contando um pouco sobre essa experiência. “Passando um pouco dessas experiências, mas também dando uma passada pela literatura e referências que ajudava a gente a desenvolver sobre o ensino híbrido e sobre a importância da integração”.

Em 2016, Leandro e seu sócio fundaram a Tríade Educacional, uma consultoria pensando em inovação, metodologias ativas e ensino híbrido. “Temos um trabalho focado na formação de professores, com inovação, tanto em tecnologia, quanto em processos e desenvolvimento do docente para pensar em estratégias que vão colocar o aluno no centro do processo”, conclui.

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