Por que as questões raciais e a luta das minorias devem ser pautas prioritárias em seu colégio?

Para tratar um assunto de tamanha importância e que vem ganhando os holofotes mundo afora, o Blog do IsCool App entrevistou Gabriel Marques, palestrante e autor de livros sobre o racismo; confira esse edificante bate-papo sob a ótica da educação e do princípio da igualdade

De Mineápolis para o mundo, a morte de George Floyd, negro e humilde, fez despertar o debate sobre o preconceito racial, o abuso de poder e a luta por respeito e direitos pelas camadas mais sensíveis da sociedade.

Da internet para as ruas, das ruas para dentro de casa, de dentro de casa para a sala de aula (agora virtual). Tratar sobre o assunto não só se tornou urgente, como também obrigatório mediante a velocidade com a qual a informação percorre esse ciclo.

Uma ótima oportunidade para trabalhar com mais intensidade e riqueza os projetos pedagógicos ligados à cidadania, ética e vida em sociedade. E uma excelente hora para entender se os esforços enquanto escola e importante instrumento de formação social estão sendo efetivos.

Para despertar essa análise, o Blog do IsCool App bateu um papo com Gabriel Marques, um estudioso incessante acerca do tema, que leva todo seu conhecimento a escolas do Brasil por meio do programa de formação de professores chamado “Educando crianças livres de preconceito”.

Marques, que também é publicitário e bacharel em direito, é ainda autor de vários livros, dois dos deles na área racial: “Da Senzala à Unidade Racial”(1996) e “Acendedores de Velas” (2001). Confira esse rico pingpong:

Blog do IsCool App: Como você define o papel da escola na construção da sociedade?

Gabriel Marques: As escolas, por excelência, devem estar na vanguarda da construção do pensamento e não ser apenas entes reprodutores de mensagens ou de fatos históricos. Os alunos não são caixas vazias onde pretensamente o conhecimento será depositado; antes, os alunos são minas de pedras preciosas em estado bruto, ali participando de um processo de lapidação para que possam revelar seu próprio potencial. Os professores cumprem, portanto, a função de um artífice que traz à luz potencialidades antes ocultas nos alunos, como seres pensantes e participantes ativos na construção e transformação de uma civilização em constante progresso. Este conceito naturalmente não contradiz a necessidade de compartilhamento de informações, estudo de fatos e experimentação.

Blog do IsCool App: E como as escolas têm lidado com esse compromisso hoje?

Gabriel Marques: Algumas escolas se definem como locais para o ensino de conteúdos e habilidades necessárias à participação do indivíduo na sociedade; outras adicionalmente são definidas como local para se compreender a cidadania como instrumento de participação social e política, preparação para o exercício de direitos e deveres civis e sociais, além da adoção de atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito. Outras escolas adicionam componentes ou ambiências capazes de estimular seus alunos a pensar o mundo, suas contradições, analisar contextos e buscar novas soluções para o avanço social coletivo, percebendo não apenas o movimento constante da Terra, mas o avanço e direção dos processos internos da civilização.

Blog do IsCool App: Quais têm sido os maiores desafios da escola no cumprimento desse papel?

Gabriel Marques: As duas últimas décadas têm revelado alguns desafios ameaçadores, com sinais de retrocesso nos avanços coletivos alcançados no século recém-concluído. O globo terrestre tido como redondo desde o século 16 é agora novamente apresentado como plano; a ciência é questionada e posta de lado por lideranças governamentais em muitos países, enquanto ela própria se apresenta agora, não como a todo-poderosa, mas apenas como um punhado de teorias em busca de confirmação; conquistas de toda a humanidade com a assinatura de tratados internacionais, como os acordos ambientais – tal como o da redução de emissão de carbono na atmosfera e outros – estão sendo relegados ao limbo; os sistemas econômicos, quer do Leste ou do Oeste, apresentam fissuras que parecem irremediáveis, enquanto enfermidades sociais como o racismo e a pobreza extrema ganham terreno em todas as partes. Certos princípios éticos, antes compartilhados por pessoas de todas as nações e que pareciam em ascensão, estão agora erodidos, ameaçando o consenso predominante sobre certo e errado, que em muitas instâncias havia conseguido manter abafadas as tendências mais vis da humanidade. Visíveis são as forças de desintegração, enquanto há urgente necessidade de agrupamento das forças integradoras da sociedade, para o que as escolas são instrumentais.

Blog do IsCool App: Em relação especificamente à questão do racismo, como você enxerga que ele pode ser trabalhado na escola de maneira mais eficiente hoje?

Gabriel Marques: No contexto do racismo podemos recordar Nelson Mandela (1918-2013) quando disse: “Ninguém nasce odiando o outro pela cor da sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar as pessoas precisam apreender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Neste sentido, os temas transversais em cada currículo precisariam reforçar certos princípios, incluindo materiais e debates no campo da ética e da pluralidade cultural, por exemplo. A história até agora registrou principalmente nossa experiência coletiva como de tribo, culturas, classes e nações. Com a unificação física do planeta e o reconhecimento da interdependência de todos os que nele vivem, uma nova história está agora começando: a de uma humanidade comum. Esta visão da Terra como uma pátria comum e de uma única família humana global precisa se sobrepor à tendência de “nós” e “eles”, assim como da divisão artificial dos povos em “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, o que busca definir identidades de grupos em constante disputa entre si. Esta fragmentação ou busca de primazia de um grupo ou povo sobre os demais e virtualmente sobre a própria humanidade – sejam teorias raciais ou as econômicas – tem aumentado as tensões e colocado o mundo à beira de uma nova guerra, o que naturalmente precisa ser evitado. Aqui tanto escolas, quanto demais instituições, incluindo os governos tem um papel sumamente importante a cumprir.

Blog do IsCool App: Você acredita que essa pauta faz parte da educação integral tão buscada hoje pelos colégios?

Gabriel Marques: Em primeiro lugar uma educação que se diz “integral” deveria reconhecer a unicidade da humanidade como princípio direcionador. Nesta perspectiva, a diversidade que caracteriza a família humana, longe de contradizer sua unicidade, confere ao todo uma maior riqueza. Estas duas perspectivas apontam tanto para as soluções quanto para um destino coletivo comum. Após deixar para trás os estágios de infância, adolescência e de uma juventude turbulenta, o mundo está agora, então, se encaminhando para adentrar sua maturidade coletiva, vindo a adotar novos padrões tanto em suas relações interpessoais quanto econômicas. Ao preparar seus alunos por meio do ensino de diferentes idiomas, uso das tecnologias de comunicação, etc., as escolas têm visado preparar seus alunos basicamente para o mercado de trabalho. O mercado de trabalho, entretanto, está atualmente intimamente atrelado aos dogmas e modelos decorrentes do materialismo, seja de fundo capitalista ou socialista. Os ideais encarnados nestes dogmas têm fracassado em satisfazer as necessidades comuns da humanidade como um todo e, por outro lado, estes mesmos dogmas agora apresentam graves rachaduras em suas bases, enquanto busca se remediar e reerguer. Dentre seus resultados mais aparentes, após décadas de prática irrestrita, estão a extrema concentração de renda por alguns poucos (os dados de 2019 indicam apenas 26 indivíduos como possuindo metade da riqueza mundial), enquanto avançam as disparidades sociais juntamente com o ressurgimento das forças do racismo, nacionalismo e partidarismo.

Blog do IsCool App: Um aluno com futuro brilhante inclui uma educação de crianças livres de preconceito?

Gabriel Marques: Alunos considerados brilhantes são, sobretudo, pessoas cujos princípios educacionais e espirituais estão refletidos tanto em suas palavras quanto em suas ações, como estando verdadeiramente livre de preconceitos, isto é, alguém que atua considerando todas as pessoas – independentemente de sua origem étnica, condição social ou religião – como membros da mesma família humana. Adicionalmente, com o reconhecimento de que a vasta maioria da população brasileira afirma ter alguma crença religiosa, poderíamos dizer, então que o aluno brilhante é alguém que concilia seus conhecimentos técnicos e científicos com uma verdade e prática espiritual, comum a todas as crenças, a de que “todos os que habitam na terra são membros de uma só família e filhos de um Criador único” e que “devemos agir com o outro da mesma forma que gostaríamos que conosco agisse”. Quantas e quantas vezes na história – seja passado ou presente – encontramos, entretanto, profissionais e lideranças em todos os níveis, com a mais brilhante carreira profissional, mas cujos pensamentos e ações em relação ao próximo permanecem discriminatórias, assim como de modo insistente e consciente perpetua práticas sociais e econômicas que reconhecidamente são injustas!

Blog do IsCool App: Na sua opinião, o que pode acontecer com escolas que não implementarem práticas efetivas e constantes no ensino acerca do racismo?

Gabriel Marques: Uma época como a nossa na qual as pessoas têm acesso crescente a todos os tipos de informação e uma diversidade de ideias, o conceito de justiça se afirma como o princípio governante de qualquer organização social bem-sucedida. Neste caso, qualquer escola cujos alunos não reflitam em suas posturas individuais uma consciência crescente sobre importantes temas sociais como é o caso do racismo, poderão ver a si mesmos em situações vexatórias, alienados dos grandes problemas sociais de nosso tempo; seus professores e escolas vistos como instrumentos reprodutores da mesma enfermidade para qual dizem buscar a panaceia. A existência do racismo estrutural e institucional também incorpora a dimensão da própria cegueira ou da dificuldade na identificação do problema em sua própria estrutura enquanto instituição. Num país onde mais da metade da população é reconhecida como de “pretos” e “pardos” ou negros ou afrodescendentes – segundo as diferentes terminologias – as escolas e seus dirigentes precisam não apenas se perguntar, mas encontrar justificativas consistentes – se é que estas existam – para explicar o baixíssimo número de professores e gestores negros em seus quadros. Professores igualmente podem desejar revisar interiormente se na sua relação com alunos negros existe algum preconceito embutido.

Blog do IsCool App: O assunto discriminação vai além do racismo contra o negro. Quais outras causas englobam o ensino integral do futuro cidadão e como elas todas estão correlacionadas?

Gabriel Marques: Para além da arraigada discriminação com base na cor da pele, outros preconceitos são igualmente devastadores da unidade humana, tais como aqueles baseados na etnia, gênero, nação, casta, religião, classe social e outros. No caso da discriminação de gênero, cabe destacar que a emancipação da mulher e a plena igualdade com os homens é um dos requisitos mais importantes para o estabelecimento da paz. Tal como citado por destacada instituição global – a Casa Universal de Justiça – “a negação dessa igualdade comete injustiça contra metade da população do mundo e promove entre os homens atitudes e hábitos nocivos que são transportados do ambiente familiar para o local de trabalho, para a vida política e, em última análise, para a esfera das relações internacionais”. O nacionalismo exacerbado, distinto de um patriotismo são e legítimo, também precisará ceder lugar a uma lealdade mais ampla – ao amor à humanidade como um todo. Atividades que nutrem afeição mútua e sentimentos de solidariedade entre os povos precisam ser substancialmente incrementadas. A enorme disparidade entre ricos e pobres e a urgência de se eliminar tais extremos é outro tema que requer nova abordagem do problema, em ambiente isento de polêmicas econômicas e ideológicas. Mesmo o espírito de competição que domina uma grande parte da vida moderna, onde o conflito é aceito como mola-mestra da interação humana, precisará ser revisto no sentido de uma reorganização da sociedade, livrando-a de um constante espírito belicoso, o qual precisa ser substituído pela cooperação e reciprocidade.

Blog do IsCool App: E sob qual ótica, em sua opinião, deve-se trabalhar tantos pontos?

Gabriel Marques: O conceito de justiça deverá prevalecer como a bússola indispensável nos processos de tomada de decisão, como instrumento essencial para se alcançar unidade de pensamento e ação, sabendo-se que os interesses individuais e os da sociedade estão inseparavelmente conectados. A experiência prática tem claramente demonstrado que “na medida em que a justiça se tornar uma consideração orientadora das interações humanas, isso irá encorajar um clima de consulta que permita o exame desapaixonado das opções e a escolha adequada dos cursos de ação. Portanto, ao se manter a justiça como princípio orientador, seguramente que se afastará as eternas tendências à manipulação e ao sectarismo que possam defletir o processo de tomada de decisões.

Blog do IsCool App: É importante envolver a família nessa pauta?

Gabriela Marques: A educação tem seu início, poder-se-ia assim dizer, ainda no ventre materno quando o bebê é influenciado pela alimentação da mãe e logo após por todas as influências do ambiente – seja ele um ambiente de harmonia ou violência familiar ou de seu entorno, assim como pelas muitas interações da criança com parentes, vizinhos e pelos lugares onde brinca e se desenvolve. A escola formal somente irá aparecer na vida da criança num momento em que algumas das bases do caráter, da personalidade e percepções de mundo já estão em formação. Naturalmente que tanto a educação não-formal quanto a formal são essenciais para a mudança das atitudes das pessoas. Mas a família, por excelência, é o cadinho onde se moldará a consciência, valores e atitudes em relação ao próximo. Assim, a colaboração entre escola e pais, e vice-versa, é fundamental para o sucesso do processo educacional, num trabalho ombro-a-ombro.

Blog do IsCool App: Como o colégio pode fazer isso de maneira bem-sucedida?

Gabriel Marques:A escola bem pode identificar os temas e oportunidades para uma interação e trabalho mais próximo com os pais, assim como pode oferecer seminários e reuniões especiais, onde reflexões conjuntas sobre temas emergentes na sociedade possam ser debatidos, dentro de um ambiente de conversação informal e participativa, numa oitiva daquilo que é também a percepção dos país. Há que se evitar ambientes e ou palestras formais ou modelos que reproduzam experiências reconhecidamente não tão eficazes, como as que buscam estabelecer uma relação entre “aqueles que sabem” com “aqueles não sabem”, algumas vezes identificadas na relação educador-educando, o que também pode gerar barreiras desnecessárias. Nestes espaços de reflexão conjunta algumas falas ou afirmações recorrentes em diferentes grupos poderiam ser revisadas, tais como aquelas que dizem: ‘Meninas não são boas em matemática’; ‘pessoas analfabetas não são inteligentes’, ‘não devemos confiar em estrangeiros’, entre outras. Igualmente outras questões poderão emergir de modo natural, sem a expectativa de respostas, tais como: quantos amigos negros temos em nossas relações de verdadeira amizade? Ao identificar situações de discriminação racial ou outra, situações de injustiça, qual tem sido a postura adotada: de mero expectadores ou houve alguma tomada de ação? Enfim, existem muitas questões e oportunidades nas quais escola e família podem interagir e trabalhar conjuntamente nos reforços comuns de mudança e construção social.

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