Coronavírus: aprendizados da China e de outros países para as escolas brasileiras

Como as sociedades escolares do país asiático e de outros países estão lidando com a educação a distância durante a suspensão das aulas presenciais

Desde o início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19) na China, em dezembro do ano passado, os educadores locais também tiveram que enfrentar uma mudança radical na forma de ensinar, assim como no Brasil e demais países. 

Em meados de fevereiro de 2020, quando os alunos deveriam voltar às salas de aula após o feriado de ano novo, todas as escolas foram fechadas pelo governo chinês e muitas decidiram começar a educação a distância.

O que se viu na China após o surto é que 270 milhões de estudantes passaram a ter aulas através de plataformas na web. “A China não é um lugar perfeito, mas na questão de tecnologia parece estar muito à frente do Brasil”, afirma Ricardo Geromel, autor do livro “O Poder da China”. Ainda segundo ele:

“Quando a gente vê os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), a China também está em primeiro lugar. Por isso, quem lida com educação, precisa olhar para o que está acontecendo nesse país”.

A China é hoje responsável por 15% do PIB mundial e a segunda maior economia do planeta. Pensando nas lições que o país asiático, primeiro a passar pela pandemia do Covid-19, pode oferecer às escolas do Brasil, pesquisamos como os educadores de lá estão lidando com a educação a distância durante a suspensão das aulas presenciais. Aproveitamos para pesquisar também outros países fortemente afetados, como Itália e Inglaterra.

Como as escolas estão ensinando on-line

As escolas chinesas estão usando diferentes formatos: algumas fornecem vídeo-aulas gravadas, outras oferecem aulas on-line por meio de arquivos (como PDF e Word), outras, ainda, transmitem ao vivo e, por fim, a algumas delas ainda combinam tudo isso.

Em Shenzhen, uma das cidades mais importantes do sul da China, as aulas a distância seguem com uma rotina diária, mesmo para aqueles do jardim de infância. Isfandiyar Xianghe Shahbazi, de apenas 6 anos, tem aulas remotas de inglês, chinês, história e STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), das 8:30 às 12h, com pequenos intervalos.

Segundo a mãe Huang Li Huang, o filho tem se adaptado bem. “Ele fica concentrado se os pais se sentam com ele em frente do computador”, diz. De acordo com ela, as aulas presenciais devem retornar em breve, primeiro para alunos mais velhos. Para os alunos da educação infantil, não há previsão ainda de retorno.

Conforme relato da especialista de educação Laurel Schwarts, que escreve para o site americano Edutopia, os professores chineses tiveram muito pouco tempo para se preparar para as aulas on-line, incluindo plataformas digitais que nunca haviam utilizado anteriormente.

“Nas primeiras semanas, os docentes precisaram ser muito flexíveis e pacientes. Tudo o que teriam feito pessoalmente levou mais tempo virtualmente. Mas, agora eles estão trazendo aos alunos experiências de aprendizado on-line de alta qualidade”, conta.

Inclusive, a Unesco elaborou o “Manual sobre facilitação da aprendizagem flexível durante a ruptura educacional” em conjunto com o governo chinês.

O manual descreve várias estratégias flexíveis de aprendizado on-line implementadas na China sob a iniciativa do Ministério da Educação desse país, o que garantiu o aprendizado on-line flexível a mais de 270 milhões de estudantes que estão em suas casas. Acesse aqui o manual (em inglês).

A maior preocupação da entidade governamental é que todos os estudantes tenham acesso ao aprendizado on-line, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil, para que seja possível encontrar soluções de alta tecnologia, baixa tecnologia e até mesmo sem tecnologia para garantir a continuidade do aprendizado.

Lições da China

Como os alunos deixaram de frequentar a escola fisicamente, suas aulas acontecem em tempo real, seguindo o horário regular, usando um aplicativo chinês. No Brasil, há também diversos aplicativos que podem auxiliar. Com o IsCool App, por exemplo, é possível passar as tarefas de casa para os alunos, assim como enviar comunicados aos pais, entre outras funcionalidades.

Leia mais: Coronavírus: IsCool App como alternativa para a suspensão das aulas

Assim como na China, é possível utilizar plataformas de aprendizado de código aberto também no Brasil, como o Moodle ou Google Classroom, que tem capacidade de realizar videoconferência ao vivo com quadros brancos e salas de reunião. Também é viável para dar feedback aos alunos, trabalhar com parceiros e grupos e publicar materiais de aula.

Inclusive, já fizemos um post sobre ferramentas gratuitas de educação a distância. Confira: Coronavírus: Como as escolas têm se adaptado ao ensino em casa

O objetivo é começar com lições claras e simples, sem introduzir novos programas. Os alunos também podem escrever e executar peças de teatro, criar e cozinhar receitas, realizar entrevistas e enviar essas tarefas por meio de vídeo.

Muitas escolas na China estão utilizando pastas de trabalho e tarefas baseadas em papel em vez de computadores para reduzir o tempo de tela dos alunos. Continuam fazendo com que os alunos concluam algumas tarefas em papel, tirem uma foto do trabalho concluído e enviem a foto junto com a tarefa através da plataforma.

Além das aulas assíncronas e ao vivo, alguns professores na China têm turnos diários de três horas no horário comercial. Eles efetuam login na plataforma durante o período e são visíveis como “on-line” para qualquer aluno que visite a página. Isso permite que os alunos entrem em contato com um professor para obter ajuda durante o trabalho escolar.

Exemplos da Europa

Itália

A Itália foi o primeiro país da Europa a sentir os efeitos devastadores da pandemia do Covid-19, principalmente por ter uma população idosa prevalecente e que, infelizmente, lidera os números de vítimas fatais.

Quando o governo italiano decidiu fechar as escolas como primeira medida anti-covid, as pessoas acharam que seria um fechamento breve, quase um prolongamento das férias do Carnaval. “Imagina a felicidade pouco disfarçada das crianças!”, lembra Daniela Giunta, moradora de Turim e mãe de dois filhos: Jacopo, de 15 anos e Alice, de 10 anos.

Porém, pouco a pouco, a situação do contágio só piorava e ficou claro que as escolas não iriam reabrir cedo. “Após a guerra, nunca as escolas haviam fechado. Ninguém estava pronto para lidar com uma emergência como esta”, avalia. 

Segundo Daniela, as únicas ferramentas tecnológicas que as escolas dos filhos utilizam antes da pandemia eram quadro multimídia e aplicativo que facilita a comunicação entre escola e pais, chamado Registro online. “Fora isso, nunca foi usada uma plataforma para o ensino a distância”, revela.

Na turma do seu filho mais velho, os alunos começaram a se comunicar com os professores pelo aplicativo e usando o GSuite e Google Classroom.

“Hoje, a rotina dele não está muito diferente de uma rotina presencial:  todas as manhãs, ele participa de vídeoaula segundo o horário escolar e, de tarde, estuda para completar os deveres. Às vezes, ele até reclama de ter que estudar mais do que antes!”, conta.

Já para sua filha mais nova, os professores pediram para se cadastrar na plataforma Edmodo.  De acordo com Daniela, tudo foi gradual. “Pouco a pouco, começaram a chegar deveres, vídeos e, depois do feriado de Páscoa, as professoras começaram a marcar encontros em grupo”, explica.

E completa: “Achei ótima a escolha de evitar uma simples repetição do horário escolar através do computador. Para criança desta idade, não teria sido possível manter a atenção por horas e também tinha o risco que fosse impossível a gestão da turma a distância”, diz.

Segundo ela, os alunos devem voltar às aulas presenciais apenas em setembro, já no novo ano escolar. “Não temos noticia nenhuma sobre o futuro da escola em setembro: turnos duplos? Um dia sim e um dia não? Voltar à normalidade para os italianos parece uma miragem!”, desabafa.

Inglaterra

A Inglaterra foi outro país europeu amplamente afetado pela Covid-19. “Acho que pegou todo mundo de surpresa, ninguém sabe ao certo o que fazer”, diz a brasileira Marcelle Oliveira de Campos, mãe de Miguel de 5 anos. Morando com a família em Londres, Marcelle conta que seu filho está no Reception Year (como se fosse uma pré-alfabetização no Brasil).

“A gente nunca teve contato anterior com essa plataforma que a escola do meu filho está oferecendo no momento, que é bem completa”, explica. De acordo com a mãe, Miguel não tem aulas com professores. “São passadas apenas tarefas e ele teve uma adaptação tranquila em relação a isso”, afirma.

Marcelle revela que não se cobra muito e nem cobra o filho. “Acho que todas as mães deveriam dar uma relaxada. Se ele voltar só em setembro, já será o Year One (Primeiro Ano). A escola vai saber que os alunos não terão a mesma base. Por isso, devemos confiar mais que tudo será reposto e que um dia tudo voltará ao normal” acredita.

Como efeito da pandemia, muitas escolas ao redor do mundo começaram a considerar a integração de tecnologia educacional em seus currículos, e não como uma solução alternativa. Além disso, os professores estão descobrindo que a tecnologia tem suas vantagens de maneira que nunca haviam percebido antes, como permitir um aprendizado diferenciado.

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