Coronavírus: como retomar as aulas

Especialista em educação recomenda que a volta às aulas seja momento de ouvir e acolher os alunos

Os alunos de escolas públicas e privadas em todo o Brasil não retornarão às aulas até pelo menos final de abril e devem estar preparados para repor as aulas por todo o mês de julho, quando normalmente haveria o período de férias escolares. Inclusive, muitas escolas – aquelas que optaram em não utilizar o ensino a distância nesse momento – já anteciparam as férias do meio do ano.

Segundo dados recentes da Unesco, que monitora em tempo real a suspensão das aulas no mundo todo por conta da pandemia de Covid-19 (Coronavírus), já ultrapassa 90% a taxa de estudantes em casa. No Brasil, são mais de 52 milhões de alunos sem aula até o momento. Isso é apenas um dos reflexos da pandemia que forçou a suspensão das aulas em todo o país desde meados de março desse ano.

Conversamos com Dirce Zan, diretora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para obter dicas de como retomar as aulas presenciais de forma a minimizar os impactos causados pela pausa no ano letivo. Confira a seguir:

Momento de ouvir e acolher

De acordo com a especialista em educação, enfrentamos um momento no qual as pessoas mais experientes já comparam a episódios como guerras ou grandes tragédias vividas anteriormente pela humanidade.

“Dessa forma, penso que a principal noção que precisamos ter é a de que não voltaremos a uma normalidade após esse período de isolamento social”, afirma.

Dirce Zan, que também é docente do Departamento de Ensino e Práticas Culturais (DEPRAC) da Unicamp, considera fundamental que a escola esteja disposta a ouvir e acolher a todos no possível retorno às aulas a partir do segundo semestre.

“Nesse sentido, não é possível imaginar que chegaremos à escola e nos dirigiremos às salas de aula, juntamente com nossos estudantes, e iremos partir de onde paramos no nosso último encontro!”, adverte.

Para a diretora, as escolas precisam planejar um tempo de encontro e de trocas de histórias, narrativas e sentimentos sobre esse longo tempo vivido por todos nós.

“Talvez a melhor forma desse acolhimento se desse em rodas de conversas, recheadas de muita poesia, música, imagens e cores. E, após falarmos muito sobre a nossa experiência, ou seja, sobre o que nos aconteceu, nos tocou a partir desse momento de isolamento, que poderemos repensar cronogramas e conteúdos”, recomenda ela.

A docente acredita que após essa experiência consigamos ter melhor clareza sobre o que de fato importa na longa lista de conteúdos e atividades que as escolas, em sua maioria, selecionaram para o ano letivo.

“Quanto mais estivermos abertos para ressignificarmos a escola e o trabalho que nela desenvolvemos, maior poderá ser nosso êxito nesse processo. As diferentes disciplinas, os múltiplos conhecimentos que circulam e se produzem na escola, são fundamentais para nos ajudar a pensar e entender o momento singular que estamos vivendo. Ter a pandemia como o grande tema gerador dos currículos escolares, talvez seja também muito mais produtivo e significativo”.

E conclui: “É fundamental aproveitarmos esse momento para reinventarmos o mundo e nossas relações nesse mundo e na escola”.

Retorno das aulas

Ainda não está claro quando o fim da quarentena irá chegar para que os estudantes possam retornar às aulas, porém, o Conselho Nacional de Educação (CNE) orientou que, se necessário, as instituições podem repor as aulas no próximo ano para cumprir as 800 horas mínimas anuais exigidos pela legislação. Ou seja, não é preciso cumprir o ano civil.

Essa é uma das questões que o CNE respondeu às escolas sobre o que deverão enfrentar no retorno da quarentena. Outra dúvida é se as aulas e atividades dadas no formato de EAD (Educação a Distância) serão aproveitadas no ano letivo.   

“Sim. Essas atividades não presenciais podem ser organizadas oficialmente e validadas como conteúdo acadêmico aplicado. Ou seja, podem ser aproveitadas dentro das horas de efetivo trabalho escolar”, respondeu o CNE em sua página na internet.

Vale lembrar que para isso, é preciso uma autorização da autoridade educacional do estado ou do município. Para adotar essa modalidade, as redes de ensino ou escolas precisam adequar metodologia de ensino aos recursos tecnológicos necessários.

“Todos devem prestar atenção na qualidade dessas aulas ou atividades. Os estudantes devem receber o aprendizado adequado e correto. As escolas devem zelar pelo acompanhamento, avaliações e a participação correta dos alunos”, reforça o CNE.

E completa: “Ao autorizar que as aulas e atividades continuem de forma não presencial, as autoridades dos estados e municípios e as instituições particulares devem trabalhar para proporcionar o acesso de todos os estudantes ao aprendizado. Assim como a educação a distância necessita de metodologias próprias, as escolas devem adotar mecanismos próprios de fornecimento do conteúdo e acompanhamento avaliativo e da participação efetiva dos estudantes”.

Como reorganizar o calendário escolar

No caso da suspensão das aulas seguir, o Conselho Nacional de Educação dá orientação de como reorganizar o calendário escolar.

“É necessário entender que as decisões devem ser feitas no âmbito de estados e municípios, responsáveis por indicar como será feita a reposição de conteúdos e atividades, em horas de efetivo trabalho escolar, e dias letivos”, afirma o CNE.

Em relação ao Ensino Médio, existe a Lei 13.415, de 2017 que amplia progressivamente as horas de efetivo trabalho escolar. Ela poderá ser flexível a cada estado ou município, ou seja, pode haver formas diversas de se atender a legislação nacional que deve estar articulada com as legislações locais.“É preciso sempre esclarecer que, no processo de reorganização do calendário escolar, o ano letivo pode, em situações determinadas e para efeito de reposição de aulas e atividades, não coincidir com o ano civil”, lembra.

O órgão governamental ainda reforça que “no processo de reorganização dos calendários escolares, é fundamental que a reposição de aulas e a realização de atividades escolares possam ser efetivadas preservando a qualidade de ensino”.

Futuro próximo da educação brasileira

De acordo com o CNE “a educação brasileira é robusta”. O Conselho reconhece que “instituições públicas e privadas de todos os níveis educacionais vêm demonstrando responsabilidade e compromisso na adoção de medidas que respaldem o direito de seus estudantes ao aprendizado continuado. Isso é muito importante para o Brasil”.

O Ministério da Educação e Cultura (MEC) está em dinâmica colaboração e cooperação com as instituições. Uma dessas ações colaborativas é o evento Educação no mundo 4.0 que começou no dia 8 de abril e se estende nos dias 9, 13, 14 e 15 de abril. Trata-se de webnários com especialistas em educação com transmissão via YouTube, realizados sempre a partir das 16 horas.

Confira a programação completa do evento.

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